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O LIVRO

 


O LIVRO

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.

[...] Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

 [Jorge Luís Borges, no Ensaio: O Livro]

 

 

MANEIRA DE BEM SONHAR DOS METAFÍSICOS - FERNANDO PESSOA

 


A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso.

É preciso evitar ler romances literários onde a atenção seja desviada para a forma do romance. Não tenho vergonha em confessar que assim comecei. [...] Nunca pude ler romances amorosos detidamente. Mas isso é uma questão pessoal, por não ter feitio de amoroso, nem mesmo em sonhos. Cada qual cultive, porém, o feitio que tiver. Recordemo-nos sempre de que sonhar é procurarmo-nos. O sensual deverá, para suas leituras, escolher as opostas às que foram as minhas.

Quando a sensação física chega, pode dizer-se que o sonhador passou além do primeiro grau do sonho. Isto é, quando um romance sobre combates, fugas, batalhas, nos deixa o corpo realmente moído, as pernas cansadas... o primeiro grau está assegurado. No caso do sensual, deverá ele --- sem receber a imagem mais que mentalmente --- ter uma ejaculação quando um momento desses chegar no romance.

Depois procurará trazer tudo isso para o mental. A ejaculação, no caso do sensual (que escolho para exemplo, porque é o mais violento e frisante) deverá ser sentida sem se ter dado. O cansaço será muito maior, mas o prazer é completamente mais intenso. 

EXCERTO DE:

PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 

AS METAMORPHOSES DE OVÍDIO





Poema narrativo do século VIII, do poeta latino Ovídio, é um compêndio de 15 livros escritos em hexâmetro dactílico em 12 mil versos compostos em latim, que tratam sobre a história do mundo e a cosmologia, utilizando-se da mitologia grega, no qual mistura ficção e realidade, narrando desde o princípio dos tempos até o apogeu de Júlio Cesar, já no tempo do próprio poeta, no Século de Augusto (43 a.C - 14 d.C.). 

Seguindo o conceito de Hesíodo, o poeta aborda as quatro idades cronológicas da mitologia clássica, as Idades do Ouro, da Prata, do Bronze do Ferro, unindo livremente os deuses e os mortais em histórias que falam de amor, incesto, ciúme, crime, etc. 

Nesta obra, Ovídio popularizou os mitos mais famosos e lembrados da mitologia grega como: Orfeu, Eros, Psique, Zeus, Baco, Afrodite, Narciso, entre outros, permanecendo  um dos trabalhos mais aclamados sobre mitologia até hoje e inspirando autores como: Dante, Shakespeare, Kafka, Fernando Pessoa, Cruz e Sousa. 

Na passagem abaixo retirada do Livro XV, intitulado Numa. Miscelo. Croton, Pitágoras faz um discurso extremamente poético e filosófico falando sobre a morte. Para ele, a morte não é o fim de tudo, porque o que morre é o corpo e não a alma, pois esta é acolhida por uma nova morada. Por isso, nada se destrói, apenas se transforma. 


Pitágoras 

[...]

Ó gente atônita pelo terror que lhe inspira o receio da gélida morte! Por que temer o Estige e as trevas, palavras vãs, assunto dos poetas, perigos de um mundo inexistente? Os corpos, quer os tenham destruído as chamas, na fogueira ou a lenta decomposição, nada mais podem sofrer. As almas não morrem, e, sempre que deixam uma morada, são acolhidas por uma nova morada, onde vivem e habitam.
[...]
Tudo se transforma, nada se destrói. O sopro vital erra de cá para lá e ocupa o corpo que lhe apraz; passa do corpo dos animais para o do homem, e do nosso corpo passa para os animais, sem nada perder. Do mesmo modo que a flexível cera pode ser facilmente modelada e não conserva sempre as mesmas formas, também a alma, segundo o meu entendimento, é sempre a mesma, mas emigra para várias figuras.
[...]
E já que vejo levado ao alto-mar e abri as velas aos ventos plenamente, acrescentarei que não há coisa alguma que persista em todo o orbe. Tudo flui, e só apresenta uma imagem passageira. O próprio tempo passa com um movimento contínuo, como um rio. Do mesmo modo que um rio, a hora fugidia não pode deter-se, mas como a água que é empurrada pela água e empurra, por sua vez, a que a precede, assim o tempo foge e é seguido, e é sempre diferente. O que foi antes já não é, o que não tinha sido é, e todo instante é uma coisa nova. Vedes as noites, próximas do fim, caminharem para o dia, e à claridade do dia suceder a escuridão da noite.
[...]
E então? Não vedes se sucederem as quatro estações do ano, que imitam as idades da nossa vida? Com efeito, a primavera quando surge é bem semelhante à criança, tenra e ainda lactente; então a planta nova, pouco vigorosa, rebenta em brotos, e enche de esperanças o agricultor. Tudo então floresce; o fértil campo resplandece com o colorido das flores, mas ainda falta vigor às folhas. Após a primavera, o ano, mais forte, entra o verão: é a robusta mocidade, não há, com efeito, quadra mais cheia de força, mais fecunda, mais ardente. Chega por sua vez o outono: passou o fervor da mocidade; é a quadra da maturidade, o meio termo entre o jovem e o velho; as têmporas encanecem. Vem depois, o tristonho inverno: é o velho trôpego, cujos cabelos, ou caíram, ou, os que restaram estão brancos. Também os nossos corpos mudam sempre e sem descanso. o que fomos ou o que somos não o seremos amanhã. Houve um dia em que, mera semente, primeira esperança de um homem, repousávamos no ventre de nossa mãe. Intervém a natureza, com suas mãos experientes, não querendo que o nosso corpo fique encerrado, comprimido nas entranhas maternas distendidas, e nos tira de lá para o ar livre. 
[...]
E também persiste aquilo que chamamos de elementos. Ensinarei --- prestai atenção! --- os percalços que enfrentam. O mundo eterno contém quatro corpos, que têm a virtude de produzir os outros. Deles, a terra e a água são pesados e o seu peso os impele para baixo; os dois outros carecem de peso e, se nada os detém, eles se elevam; são o ar e o fogo, que é mais puro do que o ar. Conquanto o espaço os separe, esses elementos é que tudo criam e tudo a eles retorna: dissolvida, a terra se dissipa em água líquida, a água, como vapor, de líquida se torna ar e vento; por sua vez, o ar, perdendo o peso, se torna tenuíssimo e sobe para os fogos do céu. Depois, agindo em sentido inverso, os elementos voltam à mesma ordem. O fogo condensado torna-se ar, depois água, e a água, contraindo-se, torna-se terra. Além disso, coisa alguma conserva sempre a mesma aparência, e a natureza renovadora encontra outras formas nas formas das coisas. Nada morre, acreditai-me, no vasto mundo, mas tudo assume aspectos novos e variados. O que se chama nascimento é apenas o começo de um estado diferente do estado anterior, e a morte é o fim de tal estado. Se uma parte vai para aqui, a outra vai para ali, nem por isso a soma de todos deixa de ser constante. 
[...] 
Na verdade, todos os seres têm a sua origem em outros seres. Existe uma única ave que se regenera e se reproduz por si mesma; os assírios a chamam de fênix. Não se alimenta de grãos ou ervas, mas das lágrimas do incenso e do suco do amono. Logo que completa cinco séculos de vida, nos galhos e no alto de uma oscilante palmeira, constrói um ninho com as garras e o bico imaculado. Forrando-o com folhas de canela e do aromático nardo e pedaços de cinamomo misturados com a fulva mirra, ali se acomoda e termina a vida rodeada de perfumes. (OVÍDIO, p. 280-284, 1983)

OVÍDIO. As Metamorfoses. Trad. David Gomes Jardim Junior. 1 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1983. Coleção Universidade de Bolso. 






A EXPERIÊNCIA DO CINEMA - O FILME CONTRA O LIVRO - ISMAIL XAVIER

 


É porque permanece sempre concreta, de maneira precisa e rica, que a imagem cinematográfica se presta pouco à esquematização que permitiria uma classificação rigorosa, necessária a uma arquitetura lógica e um pouco complicada. Na verdade, a imagem é um símbolo, mas um símbolo muito próximo da realidade sensível que ele representa. Enquanto isso, a palavra constitui um símbolo indireto elaborado pela razão e, por isso, muito afastado do objeto. Assim, para emocionar o leitor, a palavra deve passar novamente pelo circuito dessa razão que a produziu, a qual deve decifrar e arrumar logicamente este signo, antes que ele desencadeie a representação da realidade afastada à qual corresponde, ou seja, antes que esta evocação esteja por sua vez apta a mexer com os sentimentos.  A imagem animada, ao contrário, forma ela própria uma representação já semipronta que se dirige à emotividade do espectador quase sem precisar da mediação de raciocínio. 

A frase fica como um criptograma incapaz de suscitar um estado sentimental enquanto sua fórmula não for traduzida em dados claros e sensíveis através de operações intelectuais, que interpretam e reúnem, numa ordem lógica, termos abstratos para deles deduzir uma síntese mais concreta. Por outro lado, a simplicidade extrema com que se organiza uma sequência cinematográfica, onde todos os elementos são, acima de tudo, figuras particulares, requer apenas um esforço mínimo de decodificação e ajuste, para que os signos da tela adquiram um efeito pleno de emoção. Na literatura, mesmo os escritores que, de Rimbaud aos surrealistas, pareceram ou pretenderam libertar-se do constrangimento do raciocínio lógico, conseguiram apenas complicar e dissimular de tal modo a estrutura lógica da expressão, que é preciso operar toda uma matemática gramatical, uma álgebra sintática para resolver os problemas de uma poesia que para ser compreendida e sentida, exige não apenas uma sensibilidade sutil, mas também uma habilidade técnica semelhante à de um virtuose em palavras cruzadas. 

Nos antípodas de tais ambiguidades, o filme por sua capacidade de abstrair em razão da pobreza de sua construção lógica, da sua impotência em formular deduções, está dispensado de recorrer a laboriosas digestões intelectuais. Assim, o livro e o filme se opõem. O texto só fala aos sentimentos através do filtro da razão. As imagens da tela limitam-se a fluir sobre o espírito da geometria para, em seguida, atingir o espírito do refinamento. 

Assim sendo, a razão encontra-se em posição de exercer uma influência mais marcante, um controle mais eficaz sobre as sugestões provenientes da leitura do que sobre aquelas que emanam do espetáculo cinematográfico. Qualquer que seja o dinamismo sentimental com que se possa dotar um texto, uma parte dessa energia se dissipa no decorrer de operações lógicas a que os signos devem submeter-se antes de se transformarem, para os leitores, em convicções. É que o uso da lógica de nada vale sem a crítica, tanto quanto seria impossível conceber uma dessas faculdades separadas da outra. Mesmo quando tende a disseminar o ilógico ou o irrazoável, o livro permanece como um caminho vigiado pela razão, um caminho a partir do qual a ideia precede e governa o sentimento; um caminho, para assim dizer, clássico.

Por outro lado, as representações fornecidas pelo filme, sendo submetidas apenas a uma triagem lógica e crítica bastante sumária, perdem muito pouco de sua força emocional e vêm tocar brutalmente a sensibilidade do espectador. Esse poder maior de contágio mental, os dispositivos legais reconhecem implicitamente no cinema, onde quer que se mantenha uma censura de filmes, enquanto que a imprensa --- em princípio, pelo menos --- foi liberada da tutela dos poderes públicos. A primeira apreensão lógica é tão fugaz que a verdadeira ideia, aquela que a imagem pode gerar, só se produz depois que o sentimento foi envolvido e sob a sua influência. Mesmo quando amplia convicções que, posteriormente, poderão ser confirmadas pelo raciocínio, o filme continua a ser, por si só, um caminho pouco racional, um caminho sobre o qual a propagação do sentimento ganha em velocidade sobre a formação da ideia. É um caminho romântico, acima de tudo.

A invenção do cinema marcará, na história da civilização uma data tão importante quanto a da descoberta da imprensa? Em todo caso, vê-se que a influência do filme e do livro é exercida em sentidos bastante diversos. 

A leitura desenvolve na alma as qualidades consideradas superiores, ou seja, adquiridas mais recentemente: o poder de abstrair, classificar, deduzir. O espetáculo cinematográfico atua primeiramente sobre as faculdades mais antigas, logo, sobre as fundamentais, que classificamos de primitivas: a emoção e a indução. O livro aparece como um agente da intelectualização enquanto que o filme tende a reavivar uma mentalidade mais instintiva. Tal fato parece justificar a opinião dos que acusam o cinema de ser uma escola de embrutecimento. 

Mas os excessos do intelectualismo conduzem a uma outra forma racionalizante de estupidez da qual a escolástica, no seu apogeu, pode servir de exemplo, e onde a abundância de abstrações e de raciocínios sufoca a própria razão, afastando-a da realidade ao ponto de não mais permitir o aparecimento de uma proposição útil; em última instância, de nenhuma outra verdade. Se o livro encontrou o seu antídoto no cinema, pode-se concluir então que tal remédio era necessário. 

Reconheçamos que o cinematógrafo é, de fato, uma escola de irracionalismo, de romantismo e que, por isso, ele manifesta novamente características demoníacas, que aliás procedem diretamente do demonismo primordial da fotogenia do movimento. Na vida da alma, a razão, por meio de regras fixas, procura impor certa medida, uma relativa estabilidade aos fluxos e defluxos contínuos que agitam o domínio afetivo, às fortes mares e furiosas tempestades que transtornam sem parar o mundo dos instintos. Se não é o caso de pretendê-la imutável, a razão no entanto constitui nitidamente o fator mental de menor mobilidade. Assim, a lei da fotogenia já deixava antever que toda interpretação racional do mundo prestar-se-ia menos à representação cinematográfica do que a uma concepção intuitiva, sentimental.

Rival da leitura, o espetáculo cinematográfico é seguramente capaz de suplantá-la em influência. Ele se dirige a uma plateia que pode ser mais numerosa e diversificada do que um público de leitores, pois não exclui nem os semiletrados nem os analfabetos: não se limita aos usuários de certos idiomas e dialetos; compreende até mesmo os mudos e os surdos; dispensa tradutores e não precisa temer seus contra-sensos; e, finalmente, porque esta plateia sente-se respeitada na fraqueza ou na preguiça intelectual de sua imensa maioria. E como o ensinamento do filme vai direto ao coração, não dando tempo nem oportunidade à crítica de censurá-lo previamente, esta aquisição transforma-se imediatamente em paixão, em potencial que exige apenas a elaboração, a descarga em atos semelhantes aos do espetáculo do qual foi tirado. Assim sendo, o cinema parece poder transformar-se --- se já não o fez --- no instrumento de uma propaganda mais eficaz que a da coisa impressa.  (p. 293-295)

EXCERTO DE: 

XAVIER, I. A experiência do cinema: antologia. Org. Ismail Xavier. 1 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1983. 

PARA QUE POESIA?

 



[...] que poesia? Aquela que está, ou não está, tanto quanto em outros lugares, no poema? Ou o próprio poema? Ou um grupo de poemas? Ou o conjunto de todos os poemas? Ou a arte, o artesanato, a ciência, a técnica, o labor, a profissão, o rito, a feitiçaria, o sacerdócio, a religião, a missão, a mistificação, o dom, a benção, a maldição, a tragédia, a comédia, o fingimento, o amor, a raiva, o nojo, a obrigação, a devoção, a glória, a vergonha, o capricho, a mania, o passatempo, o jogo, o brinquedo, o ócio, a arma, o perigo, a conspiração, a blasfêmia, o roubo, a doação... [...]

Trata-se aqui, sobretudo, daquele aprofundamento provocado por toda obra de arte no ser que a considera, que a revive. A poesia trágica, sobretudo, mas também qualquer outra forma de poesia absoluta --- e, quanto mais intenso o poema, mais forte será, neste sentido, seu impacto sobre o ser que o recebe --- provocam na alma sobre a qual age uma espécie de catarse, uma purgação, uma purificação. Aquele que verdadeiramente vive um poema, imediatamente, por mais que disso não se dê conta, muda de vida. 

[...] Toda grande poesia, em particular aquela do tipo "comovente" relembra ao homem sua grandeza, seu alto destino. Recorda, igualmente, a quem vive, a seriedade, a importância da vida. [...]

Poetas há que monologam, há os que parecem dirigir-se a um só leitor, a "amada", o "amigo"..., há os que falam a um grupo de eleitos, e há os que discursam, os que pregam às multidões dos espaços e dos tempos. Qualquer que seja o caso, todavia, o poeta fala também a si próprio, organizando-se através de sua poesia. 

[...] Na poesia encontra o poeta, quando os deuses estão do seu lado, sua unidade existencial. Ela reúne harmoniosamente --- pelo menos é esse um de seus objetivos --- os aspectos antagônicos da personalidade do poeta, gerando finalmente a paz em seu microcosmos anteriormente revolto, às vezes, até caótico. Através de sua arte o poeta se concentra, se afirma, se liberta --- da mesma maneira que os demais homens, cada um em seu ofício, ou em sua devoção. Todo poeta digno de ser como tal considerado pelo povo (que nele vê, por bem, ou por mal, um dos seus guias ou porta-vozes) considera sua vida como um processo ininterrupto de aperfeiçoamento. Nesse processo entra a poesia como instrumento principal. E é por isso que a vida de um poeta perde completamente seu sentido quando, porventura, se vê ele definitivamente impedido de fazer poesia.

[...] A partir de certo ponto --- para alguns desde o primeiro contato --- a poesia se identifica de tal modo com o poeta que este não pode mais dispensar aquela. Sem ela o mundo lhe seria tão escuro e confuso que o destruiria. O poeta é, antes de mais nada, um homem que sente na própria carne e até aos ossos a necessidade de experimentar (e não apenas de observar) o universo, modificando este, obrigando-o a reagir às palavras com que o poeta o ataca, celebra ou lamenta. A poesia provoca, deflagra, registra, sublima e decide a luta entre o poeta e o universo, luta que pode acabar ou pela derrota do artista --- sempre de certo modo uma vitória --- ou por um sereno pacto final entre os dois cosmos exterior e interior, reconciliados. No combate bem combatido entre Homo e Mundus, a poesia conduz o poeta ao seu nirvana especial. 

EXCERTO de:

FAUSTINO, M. Poesia-Experiência. 1 ed. São Paulo: Perspectiva: 1977. 

COMO SABER SE VOCÊ É UM VERDADEIRO LEITOR?

 


Segundo C.S. Lewis em seu livro Como cultivar uma vida de leitura, para saber se você é um leitor-raiz ou um leitor-nutella é necessário que você apresente as características abaixo, as quais qualificam um verdadeiro apreciador da boa Literatura. Caso não, sinto informar-lhe que você não passa de um leitor-nutella, mas pode estar no caminho para reverter este quadro. 

1. ADORA RELER LIVROS 

[...] A marca incontestável de um não literato é que ele toma “já li isso” como sendo um argumento conclusivo para não ler uma obra. [...] Por outro lado, aqueles que leem grandes obras as lerão dez, vinte, trinta vezes no decorrer de suas vidas. 

2. VALORIZA MUITO A LEITURA COMO UMA ATIVIDADE (E NÃO COMO ÚLTIMO RECURSO) 

Em segundo lugar, a maioria, ainda que muitas vezes seja leitora frequente, não dá muita importância à leitura. Dedica-se a ela como último recurso. Abandona-a com entusiasmo tão logo surge qualquer passatempo alternativo. A leitura é reservada para viagens de trem, quando se está doente, momentos estranhos de solidão forçada ou para o processo chamado “ler para dormir”. Por vezes, essa maioria combina a leitura com conversas aleatórias e, com frequência, com ouvir o rádio. Literatos, por sua vez, estão sempre procurando tempo livre e silêncio para ler, e com toda atenção. Se lhes é negada tal leitura atenta e sem perturbação, mesmo que por alguns poucos dias, eles se sentem empobrecidos.

3. LISTA A LEITURA DE LIVROS ESPECÍFICOS COMO UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA DE VIDA

Em terceiro lugar, a primeira leitura de uma obra literária geralmente é, para os literatos, uma experiência tão marcante que apenas vivências como o amor, a religião ou o luto podem servir de comparação. Toda a consciência deles é mudada. Eles já não são mais os mesmos. Entretanto, não há nenhum indício de qualquer coisa parecida entre o outro tipo de leitores. Quando terminam um conto ou um romance, pouca coisa, ou absolutamente nada, parece ter ocorrido a eles.

4. REFLETE E RECORDA CONTINUAMENTE O QUE LEU

Por fim, e como resultado natural de seu diferente comportamento quanto à leitura, o que eles leram está constante e preeminentemente presente na mente dos poucos, mas não dos muitos. Aqueles sussurram na solidão seus versos e estrofes favoritos. Cenas e personagens de livros fornecem-lhes uma espécie de iconografia pela qual eles interpretam ou sumarizam sua própria experiência. Falam uns com os outros com frequência e em profundidade a respeito de livros. Os muitos raramente pensam ou falam a respeito de suas leituras. [...]

Excerto retirado de:
LEWIS, S.C. Como cultivar uma vida de leitura. Trad. Elissami Bauleo. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.