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OS SEGREDOS DE O LEITOR



O romance do alemão Bernhard Schlink narra a história de Michael Berg, um jovem de 15 anos que se apaixona por uma mulher misteriosa e vinte anos mais velha, Hanna Schmitz. Seus encontros amorosos seguem sempre um mesmo ritual: um banho, a leitura de trechos de romances (Tolstoi, Hemingway, Dickens) e poesias (Goethe, Schiller, Odisséia) pelo rapaz e finalmente o ato de amor. Ele nunca chega a saber muito sobre a vida dela nem manifesta grande curiosidade em conhecer e ela tampouco em falar de si mesma.

Após um período de intensa felicidade que parecia interminável para o rapaz, Hanna desaparece de sua vida abruptamente. Ele tem certeza de que nunca mais a verá, mas quer o destino que se engane. Sete anos depois quando já estudante de Direito, Michael será convidado para assistir, junto com seu grupo de trabalho, a um julgamento contra criminosos que fizeram parte do regime de Hitler.

Neste julgamento se depara com sua antiga amante sentada no banco dos réus. É acusada de cometer crimes de guerra e de extermínio de judeus em um campo de concentração da Alemanha nazista. Transtornado com a descoberta, Michael dividido entre as recordações de seu passado com Hanna e a indignação que o caso lhe desperta, faz do julgamento uma oportunidade para descobrir quem verdadeiramente é a mulher com quem viveu uma paixão na adolescência.

E entre observações e reflexões, ele percebe que ela esconde um segredo mais vergonhoso para si própria do que os crimes que cometera, fazendo com que deixe sua posição de espectador para se envolver no caso, tal como explica neste fragmento do romance:

Por fim ela desistiu. Falava somente quando lhe faziam perguntas, suas respostas eram curtas, só o necessário, vagas algumas vezes. Como para deixar visível que desistira, a partir de então permanecia sentada quando estava falando. [...] Às vezes, perto do final do julgamento, eu tinha a impressão de que o júri já estava cansado, querendo encerrar finalmente o caso, sem prestar mais atenção nele, com o pensamento em outro lugar, de volta ao presente após longas semanas visitando o passado.
Eu também já estava cansado. Mas não podia encerrar o caso, deixá-lo para trás. Para mim o julgamento não terminava, mas começava ali. Eu tinha sido espectador e, de repente, me tornava um envolvido, um participante, um membro do júri. Não tinha procurado nem escolhido este novo papel, mas tinha de exercê-lo, querendo ou não, fazendo alguma coisa ou me comportando de modo completamente passivo. (p. 152-153)

Apesar de condenada à prisão perpétua, a ajuda de Michael fará com que Hanna supere a humilhação que seu segredo lhe provoca, levando-a a um final inesperado, mas digno, segundo seus valores. E, apesar do tema que enfoca, o livro nos causa um encantamento dada a delicadeza com que o autor expõe o drama e a história de Hanna Schmitz.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SCHLINK, B. O leitorTrad. Pedro Sussekind. 3 ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. 

OSCAR WILDE E O RETRATO DE DORIAN GRAY








Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde
nasceu a 16 de outubro de 1854 em Dublin. Segundo filho de pais dotados de supostas inclinações literárias, tendo o pai publicado os resultados de suas pesquisas sobre antiguidades e folclore irlandês a que era dado em alguns livros e a mãe publicado panfletos inflamados acerca de seus ideais revolucionários, o menino Oscar criado até certa idade como menina diante da recusa da mãe em aceitar mais um filho homem, cresceu num ambiente de vaidade e ostentação, já que sua casa tornara-se um ponto de encontro entre literatos e boêmios.

Assim, desde cedo começou a alimentar sentimentos de superioridade e, além disso, apesar de nunca ter sido visto estudando profundamente, sempre obteve notas brilhantes em todas as escolas que frequentou, destacando-se também pela excentricidade de seus gestos e vestimentas e pelas longas madeixas que cultivava. Apresentava-se em sociedade sempre com um lírio ou um girassol na mão ou na lapela do casaco, tornando-se esta mania uma espécie de marca registrada do autor.

Após deixar a faculdade, influenciado pelo amigo John Ruskin, Oscar Wilde tornou-se um grande conferencista, tendo proferido palestras em diversos países. Conseguiu também grande destaque no mundo do teatro, devido às peças que escrevia nos intervalos de suas viagens. Durante algum tempo Oscar viveu uma vida tranquila ao lado da esposa com quem casara em 1884 e dos filhos, sendo um marido apaixonado e um pai dedicado.

Todavia essa monotonia começou a pesar sobre ele e após conhecer Robert Ross em 1886, o escritor levado por ele iniciou suas experiências homossexuais, as quais tornar-se-iam um hábito a partir de 1889, quando escreveu O retrato de Dorian Gray, seu único romance. Como era de se esperar, o livro de Wilde não foi bem recebido pelos críticos mais moralistas e conservadores, que o classificaram como uma obra envenenadora dos costumes, uma vez que prega e discute ideias avançadas para a moral e os costumes da época, abordando o homossexualismo, por exemplo.

Nesta obra, começando pelo prefácio apresentado:

O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte. O crítico é quem pode traduzir de outro modo ou para um novo meio sua impressão sobre coisas belas.  A mais elevada modalidade de crítica, é também a mais baixa, é uma forma de autobiografia.

Aqueles que encontram significados feios em coisas belas são corruptos sem serem encantadores. Isso é um defeito. Aqueles que encontram significados belos em coisas belas são os cultos. Para estes há esperança. Eles são os eleitos para os quais as coisas belas significam somente Beleza.

Não existe livro moral ou imoral. Livros são bem escritos ou mal escritos. Isso é tudo. A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver o próprio rosto em um espelho. A aversão do século XIX pelo Romantismo é a fúria de Caliban ao não ver o próprio rosto em um espelho.

A vida moral de um homem é parte do tema do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. O artista não deseja provar nada. Mesmo as coisas verdadeiras podem ser provadas.

O artista não tem inclinações éticas. Uma inclinação ética em um artista é um maneirismo imperdoável de estilo. O artista nunca é mórbido. O artista pode expressar tudo.

Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte. Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte. Do ponto de vista da forma, a arte exemplar é a do músico. Do ponto de vista do sentimento, a arte do ator é a exemplar. 

Toda arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Aqueles que vão além da superfície assumem um risco ao fazê-lo. Aqueles que leem o símbolo assumem um risco ao fazê-lo. É o espectador, e não a vida, que a arte verdadeiramente espelha.

A diversidade de opinião sobre uma obra de arte demonstra que tal trabalho é novo, complexo e vital. Quando críticos discordam, o artista está em acordo consigo mesmo. Podemos perdoar um homem por fazer alguma coisa útil, desde que ele não a admire. A única desculpa para fazer alguma coisa útil é podermos admirá-la intensamente.

Toda arte é completamente inútil.

Oscar Wilde discute também a importância e o valor da Arte na vida do homem, além de assuntos como a beleza e a juventude eternas. Neste sentido podemos classificá-lo como um romance de cunho estético, como é possível perceber no excerto a seguir:

--- Harry --- disse Basil Hallward, olhando-o cara a cara ---, todo retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, e não do modelo. O modelo é apenas o acidente, o pretexto. O pintor não o revela a ele, o pintor é que se revela a si mesmo na tela colorida. O motivo por que não exponho este quadro é o medo de que eu tenha revelado nele o segredo da minha alma. [...] Há dois meses, fui a uma recepção em casa de Lady Brandon. [...] Virei-me e vi Dorian Gray pela primeira vez. Quando nossos olhos se encontraram, senti que empalidecia. [...] Sabia que tinha deparado com alguém de personalidade tão fascinante que, se eu o permitisse, iria absorver todo o meu ser, toda a minha alma, a minha própria arte. [...] Agora é ele toda a minha arte. [...] Às vezes penso, Harry, que há apenas duas eras realmente importantes na história do mundo. A primeira é o aparecimento de um novo meio para a arte, e a segunda é o aparecimento de uma nova personalidade também para a arte. O que foi para os venezianos a invenção da pintura a óleo, o rosto de Antínoo para a escultura grega tardia, e o que será um dia para mim o rosto de Dorian Gray. E não é apenas por ser ele o tema da minha pintura, e dos meus desenhos, e dos meus esboços. Evidentemente que fiz tudo isso. Mas, para mim, ele significa muito mais do que um modelo. Isto não quer dizer que me sinta insatisfeito com o que fiz dele, ou que a sua beleza seja de tal ordem que a Arte não pode exprimi-la. Não há nada que a Arte não possa exprimir, e reconheço que todo o trabalho que realizei desde que conheci Dorian Gray é um trabalho de qualidade, é a melhor obra da minha vida. Mas, é curioso que - será que você vai me compreender? - a personalidade dele sugeriu-me uma forma inteiramente nova em arte, um estilo inteiramente novo. Vejo as coisas e penso nelas de maneira diferente. Posso agora recriar a vida de um modo que me estava oculto. [...] Um artista deve criar coisas belas, mas sem que nelas ponha seja o que for da sua vida pessoal. (WILDE, p. 11-18, 2000)

O enredo gira em torno do personagem-título, Dorian Gray, que tem seu retrato pintado por Basil Hallward, que por sua vez acredita ter encontrado na beleza, na personalidade e na juventude do rapaz um novo estilo de arte. O jovem, entretanto, instigado pelas ideias excêntricas e avançadas de Lord Harry (amigo de Basil também) faz um pacto com uma estátua, trocando sua alma pela juventude eterna. A partir daí os fatos se desenrolam, ocasionando crimes e suicídios, enquanto o retrato e o modelo sofrem transformações opostas um em relação ao outro. Em 1945 a obra de Wilde foi transposta para o cinema, sendo considerada na época um marco da expressão gótica.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

WILDE, Oscar. De profundis. Trad. Jean Melville.1 ed. São Paulo: Martin Claret, 2003. 
WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Trad. Maria de Lurdes Sousa Ruivo. (meio eletrônico) 1 ed. São Paulo: Abril Controljornal, 2000. 



DICAS DE LEITURA - LER PAR SER - GRANDE SERTÃO: VEREDAS



Discorrer sobre Guimarães Rosa ou Grande sertão: veredas, ou ainda sobre qualquer outra de suas obras é simplesmente chover no molhado. Praticamente tudo o que se podia dizer a respeito da genialidade do autor já foi dito pela grande maioria dos críticos literários brasileiros e até mesmo internacionais.

Entretanto, as várias leituras que suas obras permitem parece não se esgotarem nunca. A cada nova releitura, descobre-se uma nova faceta escondida dentro de suas obras. Grande sertão, talvez seja a obra que melhor traduza essa constatação. Ainda hoje vários pesquisadores e acadêmicos em trabalhos de conclusão de curso se debruçam sobre ela sempre em busca de novas veredazinhas nas grandes veredas da obra rosiana.

A saga de Riobaldo deixa de ser uma simples "aventura" no sertão para tornar-se alvo de reflexões sérias e universais acerca da existência humana e dois dos seus maiores problemas: a questão do bem e do mal. Torna-se objeto de especulações filosóficas, místicas, religiosas, metafísicas. É, portanto, motivo de inquietação não só para o jagunço letrado como também para todo aquele que se dispõe a ajudá-lo a caminhar pelas veredas do SER TÃO e fazer a travessia do Liso do Sussuarão, metáfora para a travessia interna de seu ser.

Trata-se, portanto, de uma obra singular, que a princípio incomoda pela peculiaridade com que Guimarães Rosa explora a linguagem oral do sertanejo. É o tipo da obra que o leitor deve estar preparado e disposto a enfrentá-la, a percorrê-la com Riobaldo, acompanhando atentamente seu relato "desorganizado". Mas, uma vez vencida a barreira da linguagem, o sertão se revela um lugar onde segundo Riobaldo, "tudo é e não é", onde "viver é muito perigoso".

Aliás, já nas primeiras páginas Riobaldo previne o leitor de que "o sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias" e que "Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal"... Por aí se comprova sua tese sobre o perigo que é o viver. E que o diabo está "na rua no meio do redemunho".

A partir dessas inquietações, Riobaldo vai construindo sua narrativa e à medida que o vai fazendo, vai também lançando outras dúvidas relacionadas a ela a fim de compreender sua trajetória de vida como jagunço no sertão e o que a teria motivado, já que no momento do relato encontra-se, como ele mesmo diz, "de range rede", inventado no gosto de "especular ideia".

Um dos ou talvez o principal motivo de Riobaldo para refazer suas andanças no sertão mineiro através da memória é o seu relacionamento confuso e trágico com o companheiro de ofício Reinaldo-Diadorim. É a partir daí que se tece o relato, pois segundo Riobaldo, tudo começa e termina em Diadorim. É, portanto, um livro que não se deve deixar de ler, principalmente para aqueles leitores que gostam de se sentirem desafiados.

Assim é Guimarães Rosa, assim é Grande sertão: veredas: um eterno vir a ser, um eterno desafio.