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OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - QUINCAS BORBA, DE MACHADO DE ASSIS


A segunda edição deste livro acabou mais depressa que a primeira. Aqui sai ele em terceira, sem outra alteração além da emenda de alguns erros tipográficos, tais e tão poucos que, ainda conservados, não encobririam o sentido. 

Um amigo e confrade ilustre tem teimado comigo para que dê a este livro o seguimento de outro. "Com as Memórias póstumas de Brás Cubas, donde este proveio, fará você uma trilogia, e a Sofia de Quincas Borba ocupará exclusivamente a terceira parte". Algum tempo cuidei que podia ser, mas relendo agora estas páginas concluo que não. A Sofia está aqui toda. Continuá-la seria repeti-la, e acaso repetir o mesmo seria pecado. Creio que foi assim que me tacharam este e alguns outros dos livros que vim compondo pelo tempo fora no silêncio da minha vida. Vozes houve, generosas e fortes, que então me defenderam; já lhes agradeci em particular; agora o faço cordial e publicamente. 

1899. 

ASSIS, de M. Quincas Borba. 1 ed. São Paulo: Ática, 1998. Série Bom Livro. 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - O RETRATO DE DORIAN GRAY, DE OSCAR WILDE



O artista é o criador de coisas belas. 

Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte. 

O crítico é quem pode traduzir de outro modo ou para um novo meio sua impressão sobre coisas belas. 

A mais elevada modalidade de crítica, é também a mais baixa, é uma forma de autobiografia.

Aqueles que encontram significados feios em coisas belas são corruptos sem serem encantadores. Isso é um defeito.

Aqueles que encontram significados belos em coisas belas são os cultos. Para estes há esperança. 

Eles são os eleitos para os quais as coisas belas significam somente Beleza.

Não existe livro moral ou imoral. Livros são bem escritos ou mal escritos. Isso é tudo.

A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver o próprio rosto em um espelho.

A aversão do século XIX pelo Romantismo é a fúria de Caliban ao não ver o próprio rosto em um espelho.

A vida moral de um homem é parte do tema do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. O artista não deseja provar nada. Mesmo as coisas verdadeiras podem ser provadas.

O artista não tem inclinações éticas. Uma inclinação ética em um artista é um maneirismo imperdoável de estilo.

O artista nunca é mórbido. O artista pode expressar tudo.

Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.

Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte.

Do ponto de vista da forma, a arte exemplar é a do músico. Do ponto de vista do sentimento, a arte do ator é a exemplar. 

Toda arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo.

Aqueles que vão além da superfície assumem um risco ao fazê-lo.

Aqueles que leem o símbolo assumem um risco ao fazê-lo.

É o espectador, e não a vida, que a arte verdadeiramente espelha.

A diversidade de opinião sobre uma obra de arte demonstra que tal trabalho é novo, complexo e vital.

Quando críticos discordam, o artista está em acordo consigo mesmo.

Podemos perdoar um homem por fazer alguma coisa útil, desde que ele não a admire. A única desculpa para fazer alguma coisa útil é podermos admirá-la intensamente.

Toda arte é completamente inútil.


*** Este prefácio, um dos mais belos da Literatura Universal é uma parte fundamental e intrigante da obra, pois Wilde apresenta várias reflexões sobre a arte, a beleza, a moralidade e a natureza da vida. Ei-las:

Arte e Crítica: Wilde defende a autonomia da arte em relação à moralidade convencional, argumentando que a arte deve ser apreciada por sua própria beleza e valor intrínseco, e não ser submetida a padrões morais rígidos.

Beleza e Envelhecimento: O prefácio introduz a noção central do romance: a ideia de que Dorian Gray vende sua alma para manter sua beleza eterna, enquanto um retrato seu envelhece e se deteriora no lugar dele. Isso levanta questões sobre a natureza da beleza, a passagem do tempo e as consequências de buscar a juventude eterna.

Dualidade da Vida e Arte: Wilde explora a dicotomia entre a vida real e a arte, sugerindo que a arte pode capturar a essência e a beleza de uma pessoa ou objeto de forma mais duradoura do que a própria vida.

Consequências Morais: O prefácio também aborda as implicações morais das ações de Dorian Gray e como a busca desenfreada pela beleza e prazer pode levar à ruína moral e espiritual.

Ironia e Crítica Social: A escrita de Wilde é permeada de ironia e crítica social, e o prefácio não foge disso. Ele desafia as convenções da sociedade vitoriana e questiona as normas morais da época.

Referência Bibliográfica:

WILDE, O. O retrato de Dorian Gray. Trad. Paulo Schiller. 1 ed. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2012. 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - A PAIXÃO SEGUNDO G.H., DE CLARICE LISPECTOR


 

A POSSÍVEIS LEITORES 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente --- atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, a personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. 

C.L. 

LISPECTOR, C. A paixão segundo G.H. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. 

P.S. Daqueles prefácios curtos e grossos. 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - PAMELA, de SAMUEL RICHARDSON





Com a intenção de divertir e distrair e, ao mesmo tempo, instruir e aperfeiçoar a mente dos JOVENS de ambos os sexos;

Com a intenção de ensinar religião e moralidade de uma maneira tão fácil e agradável que seja capaz, ao mesmo tempo, de torná-las prazerosas e proveitosas;

Com a intenção de explicar, da forma mais clara possível, os deveres paternos, filiais e sociais;

Com a intenção de pintar os maus hábitos com as cores que lhes cabem, de modo a lhes tornar merecidamente odiosos, e de apresentar a virtude com sua própria luz afável de modo a fazer com que pareça atraente;

Com a intenção de retratar personalidades com imparcialidade e de apoiá-las com clareza;

Com a intenção de colocar à mostra a angústia de causas naturais e de estimular a compaixão apenas de alguns;

Com a intenção de ensinar ao homem próspero como usar sua fortuna, ao homem apaixonado como dominar sua paixão, e ao homem maledicente como se regenerar de um modo elegante e digno;

Com a intenção de dar exemplos práticos e adequados a serem seguidos pela virgem, pela noiva e pela esposa em situações mais críticas e aflitivas;

Com a intenção de atingir bons resultados da maneira mais provável, mais natural e mais ágil, como o entusiasmo que deve envolver cada leitor sensato, e manter sua atenção na história;

E tudo sem levantar a mais simples dúvida sobre o conteúdo que possa chocar a pureza mais escrupulosa, mesmo nos momentos mais ardentes em que esta pureza venha a se sentir mais apreensiva.

Se essas recomendações são louváveis e valerem a pena, o editor das cartas seguintes, baseadas tanto na Verdade quanto na Natureza, se arrisca a afirmar que todas as intenções reunidas podem ser alcançadas aqui. 

Portanto, confiante da recepção favorável com que se arrisca a indicar esse seu pequeno trabalho, julga desnecessária qualquer apologia a ele, por dois motivos: primeiro por poder recorrer à sua própria paixão (àquela a que tem sido levado a examinar detalhadamente) e às paixões de todos os que venham a lê-lo com atenção, e depois porque o editor pôde julgá-lo com a imparcialidade que raramente um autor costuma ter. 


RICHARDSON, S. Pamela ou a virtude recompensada. Trad. Carlos Duarte; Anna Duarte. 1 ed. São Paulo: Martin Claret, 2016.  

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - MRS. DALLOWAY, DE VIRGINIA WOOLF



 

É difícil --- talvez impossível --- a um escritor dizer qualquer coisa sobre sua obra. Tudo o que ele tem a dizer, já disse da maneira mais completa, da melhor maneira que lhe é possível, no corpo do próprio livro. Se não conseguiu deixar claro o que pretendia dizer, é pouco provável que consiga num prefácio ou num posfácio de algumas páginas. E a mente do autor tem outra característica que também é avessa à introduções. É inóspita para sua cria como uma pardoca com seus filhotes. Depois que as avezinhas aprendem a voar, têm de voar; quando saem do ninho, a mãe começa talvez a pensar em outra prole. Da mesma forma, depois de impresso e publicado, um livro deixa de ser propriedade do autor; este o confia ao cuidado dos outros; toda a sua atenção é demandada por algum novo livro, que não só expulsa o predecessor do ninho, como também costuma denegrir sutilmente o caráter do outro em comparação ao dele mesmo.

É verdade que o autor, se quiser, pode nos contar alguma coisa de si e de sua vida que não está no romance; e é algo que devemos incentivar. Pois não existe nada mais fascinante do que se enxergar a verdade por trás daquelas imensas fachadas de ficção --- isso se a vida for de fato fictícia. E provavelmente a ligação entre ambas é de extrema complexidade. Livros são flores ou frutas pendentes aqui e ali numa árvore com raízes profundas na terra de nossos primeiros anos, de nossas primeiras experiências. Mas, aqui também, para contar ao leitor alguma coisa que sua imaginação e percepção ainda não descobriu, seria necessário não um prefácio de uma ou duas páginas, e sim uma autobiografia em um ou dois volumes. Devagar, com cuidado, o autor se lançaria ao trabalho, desenterrando, desnudando, e, mesmo depois de trazer tudo à superfície, ainda caberia ao leitor decidir o que importaria e o que não importaria. Assim, quanto a Mrs. Dalloway, a única coisa possível no momento é trazer à luz alguns pequenos fragmentos, de pouca ou talvez nenhuma importância: por exemplo, que Septimus, que depois se tornaria o duplo dela, não existia na primeira versão; e que Mrs. Dalloway, originalmente, ia se matar ou talvez apenas morrer no final da festa. Esses fragmentos são humildemente oferecidos ao leitor, na esperança de que, como outras miudezas, possam ser úteis.

Mas, se temos demasiado respeito pelo leitor puro e simples para lhe apontar o que deixou passar ou lhe sugerir o que deve procurar, podemos falar de modo mais explícito ao leitor que despiu sua inocência e se tornou crítico. Pois, ainda que se deva aceitar em silêncio a crítica, seja positiva ou negativa, como o legítimo comentário a que convida o ato da publicação, de vez em quando aparece alguma afirmação que não se refere aos méritos ou deméritos do livro e que o escritor sabe que é equivocada. É uma afirmação dessas que se tem feito sobre Mrs. Dalloway com frequência suficiente para merecer talvez uma objeção. Disseram que o livro era fruto deliberado de um método. Disseram que a autora, insatisfeita com a forma de ficção em voga na época, decidira pedir, tomar emprestado, roubar ou mesmo criar outra forma própria. Mas, até onde é possível ser honesto sobre o misterioso processo mental, os fatos são outros. Insatisfeita, a escritora podia estar; mas sua insatisfação se dirigia basicamente à natureza, por dar uma ideia sem lhe prover uma casa onde pudesse morar. 

Os romancistas da geração anterior não ajudaram muito --- aliás, por que haveriam de ajudar? Evidentemente, a morada era o romance, mas ele parecia construído sobre o projeto errado. A essa ressalva, a ideia começou, como começa a ostra ou o caracol, a secretar uma casa própria. E assim procedeu sem nenhum rumo consciente. O caderninho que abrigava uma tentativa de montar um projeto logo foi abandonado e o livro cresceu dia a dia, semana a semana, sem projeto nenhum, exceto o que era determinado a cada manhã na atividade de escrever. Desnecessário dizer que a outra maneira --- construir uma casa e depois morar nela, desenvolver uma teoria e então aplicá-la, como fizeram Wordsworth e Coleridge --- é igualmente boa e muito mais filosófica. Mas, no presente caso, foi necessário antes escrever o livro e depois inventar uma teoria. Se, porém, assinalo este ponto específico dos métodos do livro para discussão, é pela razão citada: porque se tornou tema de comentário entre os críticos, e não porque mereça atenção em si. Pelo contrário, quanto mais bem-sucedido o método, menos atenção ele atrai. O que se espera é que o leitor não dedique nenhum pensamento ao método ou à falta de método do livro. O que lhe diz respeito é apenas o efeito do livro como um todo em sua mente. Desta questão, a mais importante de todas, ele é um juiz muito melhor do que o escritor. Na verdade, tendo tempo e liberdade para moldar sua própria opinião, ao fim e ao cabo ele é um juiz infalível. E a ele, então, que a escritora entrega Mrs. Dalloway e sai do tribunal confiante de que o veredito, seja a morte imediata ou alguns anos mais de vida e liberdade, em qualquer dos casos será justo. 

Londres, junho de 1928.  

WOOLF, V. Mrs. Dalloway. Trad. Denise Bottmann. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 2019. 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - CAMINHANDO NA CHUVA, DE CHARLES KIEFER



COMENTÁRIO PRELIMINAR

Essa mania de escrever tenho há muito tempo, penso que a herdei de meu avô, que não escrevia mas sabia contar histórias como ninguém. Acho que foi ele que meteu isso no meu sangue. Aquelas aventuras todas que ele contava ficaram incrustradas em mim, e agora, depois de vários anos, elas vêm à tona, emergem do passado e, às vezes, nem me deixam dormir! 

Mas não é um livro de aventuras que vou escrever, nem são histórias fantásticas. Tenho a imaginação pobre e não gosto de romances de aventuras, exceto o Dom Quixote de La Mancha. É a minha própria vida que pretendo contar. Recuperar a infância que se foi e a adolescência que nem vi passar. Prometo não ser chato quanto o Proust, que também não tenho saco pra livro muito volumoso. Serei breve, tirarei o sumo das minhas memórias, o bagaço jogo fora, por ser bagaço, e para que sirva, talvez, de adubo.

Há várias formas de contar. Confesso que iniciei em terceira pessoa, tentando me esconder atrás de um narrador onisciente. Daí pensei: pô, todo mundo vai saber que é autobiográfico, todo mundo me conhece... Parti, então, pra primeira pessoa, e acredito que acertei. A história fica mais envolvente, acho que é isso. E mais fácil, principalmente pra mim. Gosto muito do Graciliano Ramos, daquelas frases secas, precisas, sem florilégios. E na primeira pessoa. Claro, não poderei escrever como ele porque tenho o meu estilo e não nasci em Quebrângulo. 

Falar nisso: já está na hora de dizer meu nome, filiação, local de nascimento e essas coisas todas que o autor põe no livro mais pra ficha de leitura do que por outro motivo qualquer. Bem, me chamo Túlio Schuster, nasci no município de Pau-d'Arco, meu pai se chama Carlos e a minha mãe Virgínia. Não tenho irmãos, acho que é por isso que sou meio mimado e me ofendo fácil. Sei que é um defeito desgraçado, mas já fiz de tudo, menos análise porque não acredito nisso, e nem posso, é coisa de ricaço, só pra justificar o dolce-far-niente, como diria um tio meu, casado com minha tia Fredolina, um italiano danado de bebedor de vinho, um vermelho sem-vergonha, contador de piada suja e mentira da grossa. 

Mas, como ia dizendo: me ofendo fácil. Muita vez já briguei por um niques qualquer. Coisinha à-toa, um osso pra irmã (eu que nem tenho irmã não devia me ofender) ou pra mãe. Essas coisas que os gaiatos dizem por deboche, pra atazanar a vida da gente. Ah, mas de uma coisa me orgulho: nunca não levei desaforo pra casa. Mas já levei nariz sangrando, costelas machucadas, hematomas no rosto...

Estava esquecendo um detalhe importante: a descrição física. Sou alto, um metro e oitenta. Tenho o olho azul, o nariz batatudo (acho que meu avô andou de transa com uma índia caingang. Meu pai também tem o nariz batatudo e cara de índio. Como é que alemão pode ter cara de índio?), o cabelo é castanho-escuro. O que mais? os meus lábios? Ah, são carnudos. E o queixo? É forte. Puxa vida! mas o que é que significa "queixo forte"? Isso aí é influência de algum romance que li. Não sei se interessa, mas eis uma coisa que fiz bastante: ler romances. Bom, mas agora já estou entrando na descrição psicológica, não estou? Os livros que alguém leu ajudaram a compor a sua personalidade, não ajudaram? Acho que o homem é um amontoado de leituras, de músicas, de pinturas e de gens. Penso que o meio influencia na formação da personalidade, não influencia? Droga! mas isso é um comentário que devia fazer mais adiante, recém estou começando o livro...

KIEFER, C. Caminhando na chuva. 3 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984. 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - DEMIAN, DE HERMAN HESSE

 

Para relatar a história da minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de minha ascendência.

Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é no entanto, para mim, mais importante do que a de qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a história de um homem --- não a de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de um homem real, único e vivo. 

Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. 

Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.

Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato. 

Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos. 

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um --- resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial --- tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se. 


HESSE, H. Demian. Trad. Ivo Barroso. 16 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. Trad. Ivo Barroso. 


OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - A MORENINHA, DE JOAQUIM MANUEL DE MACEDO



                                                           DUAS PALAVRAS

Eis aí vão algumas páginas escritas, às quais me atrevi a dar o nome de --- Romance. Não foi ele movido por nenhuma dessas três poderosas inspirações que tantas vezes soem aparar as penas dos autores: glória, amor e interesse. Deste último estou eu bem a coberto com meus vinte e três anos de idade, que não é na juventude que pode ele dirigir o homem; da glória, só se andasse ela caída de suas alturas, rojando asas quebradas, me lembraria eu, tão pela terra que rastejo, de pretender ir apanhá-la.

A respeito do amor não falemos, pois se me estivesse o buliçoso a fazer cócegas no coração, bem sabia eu que mais proveitoso me seria gastar meia dúzia de semanas aprendendo numa sala de dança, do que velar trinta noites garatujando o que por aí vai. Este pequeno romance deve sua existência somente aos dias de desenfado e folga que passei no belo Itaboraí, durante as férias do ano passado. Longe do bulício da corte e quase em ócio, a minha imaginação assentou lá consigo que bom ensejo era esse de fazer travessuras e em resultado delas saiu --- a Moreninha.

Dir-me-ão que o ser a minha imaginação traquinas não é um motivo plausível para vir eu maçar a paciência dos leitores com uma composição balda de merecimento e cheia de irregularidades e defeitos; mas o que querem? Quem escreve olha a sua obra como seu filho e todo mundo sabe que o pai acha sempre graças e bondades na querida prole.

Do que vem dito concluir-se-á que a Moreninha é minha filha, e exatamente assim penso eu. Pode ser que me acusem por não tê-la conservado debaixo de minhas vistas mais tempo, para corrigir suas imperfeições; e mostrá-la depois digna do amor dos leitores: esse era o meu primeiro intento. A Moreninha não é a única filha que possuo: tem três irmãos que pretendo educar com esmero; o mesmo faria a ela; porém, esta menina saiu tão travessa, tão impertinente, que não pude mais sofreá-la no seu berço de carteira e, para ver-me livre dela, venho depositá-la nas mãos do público, de cuja benignidade e paciência tenho ouvido grandes elogios.

Eu, pois, conto que, não esquecendo a fama antiga, o público a receba e lhe perdoe seus senões, maus modos e leviandades. É uma criança que terá, quando muito, seis meses de idade, merece a compaixão que por ela imploro; mas, se lhe notarem graves defeitos de educação, que provenham da ignorância do pai, rogo que não os deixem passar por alto; acusem-nos, que daí tirarei eu muito proveito, criando e educando melhor os irmãozinhos que a Moreninha tem cá. 

E tu, filha minha, vai com a bênção paterna e queira os céus que ditosa sejas; nem por seres traquinas te estimo menos, e, como prova, vou, em despedida, dar-te um precioso conselho: --- recebe, filha, com gratidão, a crítica do homem instruído; não chores se com a unha marcarem o lugar em que tiveres mais notável senão, e quando te disserem que por este erro ou aquela falta não és boa menina, jamais te arrepies; antes agradece e anima-te sempre com as palavras do velho poeta:

"Deixa-te repreender de quem bem te ama,

Que, ou te aproveita ou quer aproveitar-te". 


MACEDO, de M. J. A Moreninha. 1 ed. Barcelona: Sol90, 2004. 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Machado de Assis)




 

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. 

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. 

Brás Cubas.

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1971.