A PRESENÇA DO ELEMENTO GÓTICO EM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (DE EMILY BRONTE) - PARTE III




À PROCURA DO ELEMENTO GÓTICO

Para Pauline Nestor na introdução da edição de 2021 de Wuthering Heights, da Companhia das Letras: 

Tal como o romance gótico, o livro de Emily Brontë concebe um mundo obscuro e apaixonado de prisão e tortura, fantasmas e crianças trocadas. Por sua vez, tal como as obras do Romantismo, há nele a autoridade da imaginação e da emoção, uma preocupação pela influência formativa da infância e pela relação do homem com o mundo natural. O seu enfoque é “antissocial”, em vez de comunal ou ético, e o seu personagem central, Heathcliff, é uma versão do herói de Byron.

Assim, pode-se dizer que Wuthering Heights é uma obra que apresenta alguns desses elementos góticos citados anteriormente, principalmente no que se refere à atmosfera e ambientação do romance, à construção psicológica dos personagens, ao uso do imaginário sobrenatural e a presença de aspectos religiosos.

 

No que se refere à questão dos personagens, Heathcliff é retratado no romance como um personagem melancólico, sombrio, amargurado, vingativo, apaixonado e atormentado, sentimentos que quase beiram à loucura, sendo considerado uma espécie de arquétipo do herói byroniano, que cultiva suas paixões de forma tão intensa e profunda que por vezes destrói a si próprio e as pessoas ao seu redor.

 

Sua própria aparência descrita como cigano, de pele escura, com olhos e cabelos escuros e de origem desconhecida associada ao seu temperamento sombrio o tornam um modelo de elemento gótico e que chega para perturbar a atmosfera do lugar, bem como seus habitantes, como atesta essa passagem da narrativa, na qual o Sr. Earnshaw o apresenta à família após encontrá-lo perdido nas ruas de Liverpool: ─ “Veja só, mulher! Nunca vi coisa igual; mas você tem de encará-lo como uma dádiva do Senhor, embora seja tão escuro que mais pareça vir do Diabo”. (BRONTE, 1987, p. 52)

 

Além disso, Heathcliff é em algumas passagens do romance comparado a um demônio pelas outras personagens, como Hindley, Isabella e Nelly Dean devido à sua aparência e suas constantes mudanças de comportamento no decorrer da narrativa, como se vê neste excerto, durante uma tentativa de Hindley de matar Heathcliff, buscando o apoio de Isabella:

“A traição e a violência são uma paga perfeita para a traição e a violência!”, gritou Hindley. ‘Isabella, não lhe peço que faça nada; apenas que fique quieta e calada. Será que você pode fazer isso? Tenho a certeza de que você teria tanto prazer quanto eu em assistir ao fim da existência desse demônio: ele será a sua morte, se você não fizer alguma coisa; e será a minha ruína. Maldito seja o vilão! Bate na porta como se já fosse o dono da casa! Prometa-me calar a boca e, antes de o relógio marcar uma hora... faltam três minutos apenas... você será uma mulher livre!’ (BRONTE, 1987, p. 198-199)

Em outra passagem, Nelly Dean, ao levar o jantar para Heathcliff o encontra encostado ao batente da janela sem se mexer e ao tocar-lhe a fim de contemplar seu rosto, descreve a seguinte impressão para Mr. Lockwood:

A luz da vela bateu-lhe no rosto. Sr. Lockwood, não posso exprimir o susto que levei! Aqueles olhos fundos e negros! O sorriso, a palidez mortal! Não me parecia o Sr. Heathcliff, e sim um demônio; e no meu terror, deixei a vela inclinar-se para a parede e ficamos no escuro. (BRONTE, 1987, p. 362)

Mais tarde levada pelo elemento supersticioso, ela mesma se pergunta se Heathcliff é um vampiro, pois lera sobre casos demoníacos de vampirismo, cogitando “de onde viera ele, de onde viera aquele menino escuro, trazido por um bom homem para o seu lar?” (BRONTE, 1987, p. 363) numa espécie de sonho em que passa em revista a existência de Heathcliff e prevê sua morte.

 

Noutra passagem, é o próprio Heathcliff que sê vê como um demônio, quando afirma que Nelly Dean o julga como um e ao comentar com Cathy que aos olhos dela, ele se transformou “em algo pior do que o Diabo.” (BRONTE, 1987, p. 367). Já no final do romance, ao ver Heathcliff morto, o empregado Joseph também o considera um discípulo do Demo, conforme demonstram suas palavras:

 

─ O Demo carregou a alma dele! ─ falou. ─ Pode levar também a carcaça! Credo! Até da morte ele caçoa! ─ e o velho pecador fez uma cara de troça. De repente, porém, recobrando a compostura, ajoelhou-se, ergueu as mãos ao céu e deu graças por ficar Hareton, o legítimo dono, novamente na posse de seus direitos. (BRONTE, 1987, p. 368)

No entanto, tal como Heathcliff, outras personagens como Hindley, Hareton, Linton e Joseph também apresentam traços desse comportamento arredio, rude, perturbado e taciturno, corroborando para e atmosfera lúgubre e soturna do romance. Catherine apresenta um comportamento mais impetuoso, difícil, mimado, caprichoso e intempestivo, capaz de fortes emoções, o que culmina com seu estado de nervos à flor da pele e seu ânimo sempre perturbado pela presença e o amor que Heathcliff lhe inspira.

 

Pode-se dizer que os personagens mais centrados nessa atmosfera de perturbação e loucura onde se desenrolam os acontecimentos da narrativa são Edgar Linton, que a tudo enfrenta com serenidade, paciência e bom senso, e Nelly Dean, que apesar de participar de alguns fatos consegue ser firme e racional, sem se deixar abater pelas intensas situações que vivencia.

 

No que se refere à ambientação do romance, o próprio Mr. Lockwood já nos dá uma pista no início da narrativa, quando diz que “em toda a Inglaterra, acho que não poderia ter encontrado um lugar tão completamente afastado da sociedade humana”. (BRONTE, 1987, p. 19)

 

E mais tarde, quando reclama de seu estado de saúde devido a um resfriado que o obrigara a passar semanas na cama: “Oh, estes ventos cortantes, estes céus fechados; estas estradas intransitáveis, [...] esta ausência de rostos humanos!” (BRONTE, 1987, p. 109)

Além disso, todo esse tumulto sentimental vivido pelos personagens parece transparecer na descrição climática e atmosférica do lugar, da paisagem e das charnecas que ligam Wuthering Heights à Granja Thrushcross, com ventos frios e chuvas fortes e cortantes, como demonstra o seguinte trecho:

Cerca de meia-noite [...] a tempestade caiu com toda a fúria sobre o Morro. Um vento furioso acompanhava a trovoada, derrubando uma árvore a um canto da casa; um enorme galho se abateu sobre o telhado e derrubou uma parte do cano da chaminé de lesta, jogando um monte de pedras e fuligem na lareira da cozinha. (BRONTE, 1987, p. 102)

E, segundo nos conta ainda Mr. Lockwood acerca da origem do nome Wuthering Heights: "A propriedade do Sr. Heathcliff chama-se, adequadamente, Wuthering Heigths, sendo wuthering um significativo adjetivo provinciano para designar o tumulto atmosférico ao qual ela está sujeita em tempo tempestuoso" (BRONTE, 1987, p. 20). Portanto, nada mais apropriado para o contexto no qual se desenrola o conflito da narrativa.

Finalmente, o uso do imaginário sobrenatural, em que se destacam sonhos, devaneios, alucinações e contatos sobrenaturais das personagens com os mortos aparece em vários excertos da narrativa. Nesta passagem, logo no início, no capítulo 3, após a morte de Catherine Earnshaw/Linton, Mr. Lockwood vendo-se obrigado a pernoitar em Wuthering Heights no quarto de criança da morta devido a uma nevasca muito forte, narra um contato sobrenatural com ela:

O peitoril, onde coloquei a vela, tinha, empilhados a um canto, alguns livros embolorados, e a sua pintura estava coberta de escritos, que, examinados de perto, mostravam ser apenas um nome, repetido em todos os tipos de letras, grandes e pequenas: Catherine Earnshaw, aqui e ali alterado para Catherine Heathcliff, e depois para Catherine Linton.

Entopercido, apoiei a cabeça no peitoril e continuei a soletrar Catherine Earnshaw... Heathcliff... Linton, até que os meus olhos se fecharam; mas eles não tinham descansado nem cinco minutos, quando um brilho de letras brancas surgiu do escuro, como espectros, enchendo o ar de Catherines. Abrindo os olhos para dissipar aquele nome, vi que o pavio da vela se encostava num dos volumes embolorados e perfumava o aposento com um cheiro de couro queimado. Soprei o pavio, e, sob a dupla influência do frio e da náusea, sentei-me e abri o volume queimado contra o joelho. [...] Aquilo despertou imediatamente, em mim, um interesse por aquela desconhecida Catherine, e pus-me a tentar decifrar os seus desbotados hieróglifos.

[...] lembrava-me de que estava deitado no compartimento de carvalho e ouvia distintamente a ventania e o bater da neve contra o telhado; ouvia, também, o galho do pinheiro roçar contra a vidraça e sabia o que provocava aquele barulho impertinente; mas a tal ele me incomodava, que resolvi silenciá-lo. Levantei-me e tentei abrir a janela. A lingueta estava soldada, fato que eu observara quando acordado, mas que esquecera. ─ Tenho de acabar com esse barulho, seja como for! ─ murmurei, partindo a vidraça com o punho e esticando um braço para agarrar o importuno galho. Em vez disso, porém, os meus dedos pegaram uma mão pequenina e gelada! O intenso horror do pesadelo tomou conta de mim: tentei retirar a mão, mas a mãozinha agarrou-se ainda mais a ela e uma vozinha melancólica soluçou: ─ Deixe-me entrar... deixe-me entrar! ─ Quem é você? ─ perguntei, enquanto lutava por me libertar. ─ Catherine Linton ─ respondeu a voz, como se tremesse de frio (por que razão fui pensar em Linton? Tinha lido o nome Earnshaw vinte vezes mais do que Linton). ─ Voltei. Perdi-me na charneca! ─ Enquanto ela falava, distingui, na escuridão, um rosto de criança olhando através da janela. O terror tornou-me cruel; e, vendo que era inútil livrar-me da criatura, puxei-lhe o pulso através da vidraça partida, para a frente e para trás, até que o sangue escorreu e encharcou a roupa de cama. Mesmo assim, a voz continuou a gemer: ─ Deixe-me entrar! ─ e a manter a mão agarrada à minha, quase me enlouquecendo de pavor. ─ Como é que eu posso? ─ consegui, por fim, dizer. ─ Solte-me, para que eu a possa deixar entrar! ─ Os dedos relaxaram um pouco a sua pressão. Recolhi depressa a minha mão através do buraco, empilhei os livros numa pirâmide, a fim de tapá-lo, e levei as mãos aos ouvidos, para não ouvir o lamentoso pedido. Acho que os conservei fechados mais de um quarto de hora; mas, logo que os destapei, ouvi de novo o triste gemido. ─ Fora! ─ gritei. ─ Nunca deixarei você entrar, nem que fique aí pedindo durante vinte anos! ─ Faz mesmo vinte anos ─ gemeu a voz ─, vinte anos. Há vinte anos que ando perdida! ─ Ouvi arranhar levemente a vidraça, e a pilha de livros começou a se mexer, como se alguém a empurrasse. Tentei levantar-me, mas não consegui mover-me... e então soltei um grito, no auge do pavor. Langit

Após o episódio, Heathcliff pede ao inquilino que saia do quarto (pois era como um santuário para ele) e, demonstrando algo como uma superstição desesperada e sofredora, tem uma espécie de delírio com Catherine, pois:

Subiu na cama e abriu a gelosia, explodindo, ao fazê-lo numa incontrolável torrente de lágrimas. ─ Entre! Entre! ─ soluçou. ─ Cathy, entre. Oh, venha... venha... uma vez mais! Oh, minha adorada! Escute-me agora, Catherine, finalmente! ─ O espectro mostrou um capricho bem digno dos espectros: não deu sinais de vida; mas a neve e o vento entraram à vontade, chegando até onde eu estava e apagando a luz. (BRONTE, 1987, p. 44)

No momento em que toma conhecimento da morte da amada é possível perceber que Heathcliff sente um estranho prazer em puni-la por ter escolhido Edgar, demonstrando todo o seu sofrimento e desespero por tê-la perdido:

─ Oxalá tenha um despertar tormentoso! ─ exclamou ele, numa voz terrível, batendo com o pé e rosnando num acesso de descontrolada paixão. ─ Ela mentiu até o fim! Onde está ela? Não está lá... não está no céu... não morreu... onde é que ela está? Oh, você disse que não se importava com os meus sofrimentos! Pois bem, vou rezar. Vou rezar até não ter mais fôlego, para que você, Catherine Earnshaw, não possa ter descanso enquanto eu esteja vivo! Você disse que eu a tinha matado... Pois bem, assombre-me! As vítimas costumam assombrar os seus algozes. Sei de fantasmas que erraram de verdade pela terra. Persiga-me, assuma a forma que quiser, enlouqueça-me até! Mas não me deixe neste abismo, onde eu não posso encontrá-la! Oh, meu Deus, é impossível! Eu não posso viver sem a minha vida! Eu não posso viver sem a minha alma!

Bateu com a cabeça contra o tronco nodoso; e, erguendo os olhos, uivou, não como uma criatura humana, e sim como um animal selvagem espetado até a morte com facas e lanças. Vi vários salpicos de sangue no tronco da árvore e notei que ele tinha a mão e a testa ensanguentadas; provavelmente passara a noite naquele desespero. (BRONTE, 1987, p. 190)

Mais ao final da narrativa e cada vez mais sem conseguir conviver com a dor e o sofrimento experimentados pela morte da amada, Heathcliff passa suas noites fora de casa, fazendo diversas visitas ao cemitério a fim de buscar um contato com a morta. Nelly Dean percebendo alterações um tanto assustadoras no comportamento dele, em determinado momento o chama de perverso e ele lhe explica o que fez:

[...] No dia em que ela foi enterrada, caiu uma nevada. À noite, fui até o cemitério. Soprava um vento desolado, como se fosse inverno... tudo em volta estava solitário. [...] Sozinho e sabendo que a única barreira entre nós eram dois metros de terra solta, disse comigo mesmo: “Hei de apertá-la novamente nos braços! Se ela estiver fria, pensarei que é este vento do norte que me gela; e, se ela estiver imóvel, que está dormindo”. Apanhei uma pá na casa de ferramentas e comecei a cavar com todas as minhas forças, até bater no caixão; estalava nas dobradiças; eu estava quase alcançando o meu objetivo, quando me pareceu ouvir um suspiro de alguém que estivesse à beira da cova e debruçado sobre ela. “Se eu pudesse tirar isto para fora!”, murmurei. “Gostaria que nos cobrissem de terra, a nós dois!” E tentei mais desesperadamente ainda abrir o caixão. [...] (BRONTE, 1987, p. 319)

Ou seja, numa imensa demonstração de desespero, tentou profanar a sepultura da morta como se quisesse trazê-la de volta à vida. Assim, Heathcliff após desistir da vingança contra os sobrinhos Hareton e Cathy, que acabam por se acertar e ficar juntos, termina por se deixar morrer de fome e frio trancado em seu quarto, deixando a janela aberta em meio à chuva que caía em Wuthering Heights a fim de tornar-se ele também um fantasma, já que de acordo com suas palavras: “Acredito piamente em fantasmas: estou convencido de que eles podem existir... e existem... entre nós!” (BRONTE, 1987, p. 318)

 

Após partir em busca de seu destino, Nelly Dean narra relatos de visões fantasmagóricas e espectrais de Heathcliff e Catherine pela vizinhança, os amantes que se encontraram somente depois da morte, conforme atesta esta última passagem do romance:

 

Foi sepultado, para escândalo de toda a região, segundo o seu desejo. Eu e Earnshaw, o coveiro e seis gatos-pingados -- eis o acompanhamento. Os seis gatos-pingados foram embora assim que puseram o caixão na sepultura; nós ficamos para vê-lo ser coberto. Com o rosto lavado em lágrimas, Hareton arrancou tufos de grama verde e colocou-os sobre a terra: atualmente, a sepultura está tão verdejante quanto a da companheira ─e espero que o seu ocupante tenha um sono igualmente sossegado. Mas a gente do campo, quando se lhes pergunta, jura pela Bíblia que o vê caminhar: há quem diga que o enxergou perto da igreja, na charneca e até mesmo nesta casa. Histórias, dirá o senhor, e eu também. Contudo, aquele velho sentado diante do fogo afirma que vê os dois, olhando pela janela do quarto dele, todas as noites de chuva, desde que o patrão morreu ─ e uma coisa estranha aconteceu-me, há cerca de um mês. Eu estava indo para a granja, uma noite -- uma noite escura, ameaçando trovoada ─, e, bem na encruzilhada que leva ao Morro, encontrei um rapazinho com um carneiro e duas ovelhas; chorava horrivelmente e eu supus que as ovelhas estivessem assustadiças e se recusassem a obedecer-lhe.

─ Que foi, meu homenzinho? ─ perguntei.

─ Heathcliff e uma mulher estão ali, perto do morro ─ gaguejou ele ─, e estou com medo de passar.

Nada vi; mas tanto as ovelhas quanto ele se negavam a passar, de modo que lhe disse para ir pela estrada de baixo. Provavelmente ele imaginara os fantasmas de tanto pensar, ao atravessar sozinho a charneca, nas bobagens que ouvira os pais e os colegas repetirem. Mas a verdade é que já não gosto de sair no escuro e nem de ficar sozinha neste casarão. (BRONTE, 1987, p. 368-369)

Como se vê, apesar de toda a rusticidade e os pretensos defeitos da obra de Emily Bronte, Wuthering Heights é um romance com muitos aspectos a ser explorados, não só em relação aos elementos góticos, mas em vários outros que se percebem no decorrer da leitura. É ler para descobrir esse presente deixado pela autora para nós leitores de todas as épocas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BRONTE, E. O morro dos ventos uivantes. Trad. Vera Pedroso. 1 ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

BRONTE, E. O morro dos ventos uivantes. Trad. Julia Romeu. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. 11 ed. São Paulo: Cultrix, 2002.

NETO, F. de C. A.; MILTON, J. Literatura inglesa. Curitiba: IESDE, 2009.

_________________. Saiba o que é literatura gótica e seus principais representantes. Disponível em: <https://cursinhoparamedicina.com.br/blog/literatura/saiba-o-que-e-literatura-gotica-e-quais-sao-os-seus-principais representantes/> Acesso em 30/09/23.

 

 

A PRESENÇA DO ELEMENTO GÓTICO EM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (DE EMILY BRONTE) - PARTE II




HISTÓRIA DA LITERATURA GÓTICA

O termo "gótico" vem do latim gothicu e é um adjetivo referente à tribo dos godos, um povo de cultura germânica, habitante da região do rio Danúbio, que posteriormente se espalhou pela Europa. Mais tarde o termo passou a abranger e a se referir a outras áreas, como a arquitetura, as artes plásticas e a literatura.

Em literatura, surgiu no século XVIII na Inglaterra com a obra, O castelo de Otranto, de Horace Walpole (1764), o qual tinha como subtítulo a expressão "a gothic story". Com uma narrativa ambientada em um castelo medieval recheada de seres sobrenaturais e inusitados como: fantasmas, estátuas vivas e gigantes associados aos sentimentos de amor, angústia e terror, seu livro obteve imenso sucesso, tendo-se seguido mais de 150 edições após o lançamento.

 

Considerada uma vertente literária do Romantismo, a literatura gótica se volta mais para o mistério e o obscuro. Daí suas principais características: uso de cenários medievais; personagens melodramáticos; psicologia do terror, na qual se explora sentimentos como o medo e a loucura; uso do imaginário sobrenatural, no qual aparecem figuras fantasmagóricas, demônios, monstros e espectros; morte; satanismo; presença de aspectos religiosos; concepções estéticas e filosóficas, entre outras.

Assim: 

Quer-se crer que não se trata duma ficção menor, votada ao entretenimento do leitor, mas de romances, ou novelas, dotados de outro interesse, na medida em que os protagonistas, antes que meros fantoches, seriam autênticos casos psicológicos. Além disso, o gótico busca envolver o leitor, mantendo-o em suspense, alarmá-lo, chocá-lo, incitá-lo, provocando-lhe, em suma, uma resposta emocional. Portanto, "a marca distintiva da ficção gótica é a sua atmosfera e o uso que dela se faz" [...]: os vários expedientes cenográficos (castelos em ruínas, trevas, etc.) apenas colaborariam para formular a ambiência em que se pretende imergir o leitor. A atmosfera pode ser de terror ou de horror, conforme dependa do suspense ou medo, no primeiro caso, ou de o leitor ser atingido "frontalmente com acontecimentos que o chocam e o perturbam", no segundo. (MOISÉS, 2002, p. 261-262)

Nascidas como uma reação ao Racionalismo, as primeiras obras góticas buscavam uma forma de evitar a dor da solidão e do sofrimento através de um mundo não dominado pelo ser humano e da crença em seres extraordinários. Além disso, a Europa experimentava um grande desenvolvimento científico nessa época e, portanto, retornar às crenças antigas era uma maneira de se distanciar desse universo racional.

 

Alguns dos principais autores da literatura gótica universal são: Ann Radcliffe, Mathew Lewis, William Godwin, Charles Robert Maturin, Mary Shelley, Lord Byron, Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe, além dos brasileiros Álvares de Azevedo, Alphonsus de Guimarães e Augusto dos Anjos.

Um dos grandes personagens da literatura gótica é o monstro Frankenstein, criado em 1820 por Mary Shelley na obra de mesmo nome. Outras obras publicadas com títulos semelhantes nessa mesma vertente são: Nightmare Abbey, de Thomas Love Peacock e Northanger Abbey, de Jane Austen (póstuma).

Mais tarde, em 1891 com a publicação de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, houve um fortalecimento da estética gótica, surgindo as primeiras obras vampirescas, como Drácula, de Bram Stoker publicado em 1897, tendo sido adaptado várias vezes para o teatro e o cinema. Outra obra inserida nesta vertente é, Entrevista com o vampiro, de Anne Rice, publicada em 1973.

 

Por apresentarem intensa carga emocional, atmosfera sombria, personagens perturbadores, ambientes fantasmagóricos, entre outras, essas obras afrontavam os costumes e a cultura de suas épocas, sendo por isso, fortemente rejeitadas pelo público leitor. 

Entretanto, com o passar do tempo e a popularização das obras, esse quadro de rejeição mudou completamente, fazendo com que fossem adaptadas para o cinema.

 

 

A PRESENÇA DO ELEMENTO GÓTICO EM O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (DE EMILY BRONTE) - PARTE I

 


BREVE INTRODUÇÃO

Whutering Heights, único romance da escritora britânica Emily Brönte, traduzido para o português como, O morro dos ventos uivantes foi publicado em 1847. Considerado um clássico da literatura inglesa recebeu inúmeras críticas, inclusive sobre sua construção narrativa. 

Nascida no condado de Yorkshire, Emily viveu isolada não só em seu círculo familiar, mas também das coisas do mundo, além de ter convivido sempre de perto com a morte (perdendo a mãe em 1821 e duas irmãs mais velhas em 1825), seus escritos refletem um pouco dessa atmosfera um tanto sobrenatural que a circundava.

 

Para os críticos da época era inconcebível que uma moça de temperamento introvertido, tímido e extremamente contido (sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell), avessa às relações sociais e com pouquíssimo contato com as coisas do mundo e da vida compusesse uma obra tão completamente fora de seu universo. 

 

Tudo isso porque o enredo de Emily, cujo cenário é a própria região em que ela cresceu, foi considerado rústico demais e com personagens inverossímeis. A justificativa de acordo com sua irmã Charlotte Bronte em prefácio publicado em uma segunda edição da obra era de que os camponeses analfabetos e fidalgos não refinados daquelas paragens não poderiam externar paixões de forma tão intensa e brutal nem se utilizar de uma linguagem forte, devido às condições em que eram criados e os ensinamentos que recebiam num ambiente rude e de contenção de sentimentos.

 

Ainda segundo ela, “as bravias charnecas do norte da Inglaterra” e a “linguagem, as maneiras, as próprias moradas e os usos domésticos dos poucos habitantes dessas regiões” poderiam soar ininteligíveis e até mesmo repulsivos para os leitores, tornando-a uma obra exótica e estranha.

 

Mas é preciso deixar claro que Emily, bem como suas irmãs sobreviventes (além de Charlotte, Anne Bronte) sempre alimentaram o sonho de se tornarem escritoras, pois nutriam grande interesse por livros e literatura, incentivadas que foram pelo pai a estudar. Assim, elas “consumiam avidamente jornais e revistas, e estavam tão familiarizadas com as comédias mais picantes de Shakespeare e a poesia de Byron quanto com a leitura da Bíblia”, segundo Pauline Nestor na introdução da edição de 2021, da Companhia das Letras citada nas referências.

 

Com isso, após publicarem em conjunto um pequeno livro de poesias, elas se aventuraram pelo romance, cada uma escrevendo o seu. Charlotte produziu Jane Eyre; Anne escreveu, Agnes Grey e Emily criou o mais polêmico e exaltado dos três, O morro dos ventos uivantes. 

 

Trazendo uma narrativa centrada na atormentada, sombria e fantasmagórica história de amor e ódio de Heathcliff  e Catherine Earnshaw entre as propriedades de Wuthering Heights e a Granja Thrushcross, ela é contada em flashback através de um narrador-testemunha, na figura da bondosa e prestativa governanta Nelly Dean no ano de 1801, num tempo presente da narrativa ao novo inquilino da Granja, Mr. Lockwood, um forasteiro que chega para causar certa desordem no lugar.

 

Pode-se dizer que há dois narradores no enredo, uma vez que nos três primeiros capítulos é Mr. Lockwood quem nos conta como chegou à Granja Thrushcross, além de seu primeiro e único contato com Heathcliff.

 

A partir do capítulo 4 ao solicitar à Nelly Dean que fale mais sobre a história do lugar e a vida de seus habitantes, é a governanta quem assume a tarefa de relatar os fatos em torno do romance doentio e não concretizado de Heathcliff Catherine até o capítulo 31. No capítulo 32, agora no tempo presente, no ano de 1802, a narrativa volta momentaneamente para Mr. Lockwood, em passagem por Wuthering Heights a caminho de Gimmerton, uma localidade próxima, no qual cede a palavra para Nelly Dean outra vez para que esta lhe narre os últimos acontecimentos, encerrando-se a narrativa no capítulo 34.

 

No início do enredo, Heathcliff, um pequeno órfão, de cabelos pretos, sujo, esfarrapado, com aspecto cigano e de origem não revelada na história é trazido para Wuthering Heights após uma viagem de três dias empreendida pelo Sr. Earnshaw, alegando tê-lo encontrado faminto e abandonado pelas ruas de Liverpool, assim descrito pela governanta: “Era uma criança taciturna e paciente, talvez endurecida pelos maus-tratos”. (BRONTE, 1987, p. 54)

 

Entre diversos acontecimentos num enredo que parece dar um nó na cabeça do leitor, o garoto e Catherine, sua irmã adotiva logo se sentem afeiçoados um pelo outro, nascendo daí um amor desesperado, confuso e sombrio que nem a morte nem o tempo apagará. Assim, assemelhando-se às paisagens ermas, distantes, desoladas, amedrontadoras, gélidas, funestas e obscuras, onde assoviam ventos ora tristes e melancólicos, ora fortes e tempestuosos, as personagens também são descritas conforme o ambiente em que vivem: frias, perturbadas, sombrias, temperamentais, impetuosas, impulsivas, coléricas, teimosas, entre outras. 

E é nessa atmosfera que se desenvolve essa narrativa intensa, visceral e apaixonante, que nos desperta sentimentos contraditórios o tempo todo durante a leitura, na qual se destacam alguns elementos góticos, dos quais falaremos a seguir.


LITERATURA - AFINAL, O QUE É LITERATURA?

 


Em primeiro lugar, a palavra “literatura” vem do latim littera e tem por significado o ensino das primeiras letras. Somente com o tempo é que foi recebendo outros significados, como “arte das belas letras”, “arte literária” e “poesia” no século XVIII em detrimento do termo “literatura”, devido ao fato de que nessa época o culto da imaginação havia entrado em moda e era muito valorizado.

Apenas no final do século XVIII e início do século XIX é que o termo “literatura” passou a ser empregado para se referir a textos escritos ou impressos, passando também a significar “o conjunto da produção literária de um determinado país”, por isso, “cada país possuiria uma literatura com caracteres próprios, uma literatura que seria expressão do espírito nacional e que constituiria, por conseguinte, um dos factores relevantes a ter em conta para se definir a natureza peculiar de cada nação. Sintagmas como literatura alemã, literatura francesa, literatura italiana, etc., foram-se tornando de uso frequente”. (SILVA e AGUIAR,  p. 7, 2007).

É importante saber que não existe uma definição clara de Literatura, mas sim conceitos. Afinal, essa questão vem sendo pensada há mais de 2500 anos, pois de acordo com Silva e Aguiar (p. 14, 2007) trata-se de um processo histórico ininterrupto de produção de novos textos ao longo do tempo, que assim como podem representar na época de seu aparecimento uma novidade e uma ruptura imprevistas sobre os textos já conhecidos também podem propiciar modificações profundas e severas nos textos produzidos até então, proporcionando ou determinando novas possiblidades de leituras desses mesmos textos.

Assim, os conceitos vêm mudando ao longo do tempo devido aos critérios adotados para se considerar uma obra como literária, entre eles a originalidade, a permanência dessa obra ao longo dos séculos, o emprego da linguagem na obra, a importância histórica e cultural da obra dentro do país em que foi criada, a universalidade, etc.

Vejamos então alguns conceitos de diversos autores, estudiosos e críticos literários de variadas épocas:

"Arte Literária é mimese (imitação); é a arte que imita pela palavra". (Aristóteles, Grécia Clássica)

"A Literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem". (Louis de Bonald, pensador e crítico do Romantismo francês, início do século XIX)

"Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”. (Ezra Pound)

"Tal é, pois, a "verdadeira" e "pura" literatura: uma subjetividade que se entrega sob a aparência de objetividade, um discurso tão curiosamente engendrado que equivale ao silêncio; um pensamento que se contesta a si mesmo, uma Razão que é apenas a máscara da loucura, um Eterno que dá a entender que é apenas um momento de História, um momento histórico que, pelos aspectos ocultos que revela. remete de súbito ao homem eterno; um perpétuo ensinamento, mas que se dá contra a vontade expressa daqueles que ensinam". (Jean-Paul Sartre)

"A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. A verdade estética – desde Aristóteles que se sabe – é diversa da verdade histórica. O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades fatuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro. A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana". (Afrânio Coutinho)

"A literatura é como o sorriso da sociedade. Quando a sociedade ela está feliz, o espírito se lhe reflete nas artes e, na arte literária, com ficção e com poesias, as mais graciosas expressões da imaginação. Se há apreensão ou sofrimento, o espírito se concentra grave, preocupado, e então, histórias, ensaios morais e científicos, sociológicos e políticos, são-lhe a preferência imposta pela utilidade imediata". (Afrânio Peixoto)

Desse modo, podemos resumir a Literatura nas palavras proféticas do Prof. Vitor Manuel de Aguiar e Silva:

"A literatura não é um jogo, um passatempo, um produto anacrônico de uma sociedade dessorada, mas uma atividade artística que, sob multiformes modulações, tem exprimido e continua a exprimir, de modo inconfundível, a alegria e a angústia, as certezas e os enigmas do homem. [...] E assim há de continuar a ser com os escritores de amanhã. Apenas variará o tempo e o modo". 


BIBLIOGRAFIA:

MOISÉS, M. A criação literária: poesia e prosa. 1 ed. São Paulo: Cultrix, 2015.

SILVA e AGUIAR de MANUEL, V. Teoria da Literatura. 8 ed. Coimbra: Almedina, 2007. 


 

OS MELHORES PREFÁCIOS DA LITERATURA UNIVERSAL - MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (Machado de Assis)




 

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. 

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. 

Brás Cubas.

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1971. 




PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (LIVRO E FILME)





Baseado na obra de Lionel Shriver, autora do livro de mesmo nome (que por sua vez é baseado em fatos reais acerca de uma tragédia escolar nos subúrbios de Nova York), o filme conta a história de Eva, uma mulher que prezava por sua liberdade e não desejava ser mãe, mas é obrigada a assumir o papel depois de muita insistência do marido Franklin para ter filhos. Ao descobrir a gravidez de Kevin, Eva passa a sentir-se estranha consigo mesma, pois teve de deixar sua vida de cidadã do mundo e executiva de uma bem-sucedida empresa de viagens para embarcar na amedrontadora aventura da maternidade. 

Assim, Eva passa seus dias dedicando-se à nova casa no subúrbio e aos preparativos para a chegada do bebê, dividida entre dois mundos e sentindo-se culpada por não desejar ardentemente aquele filho. Após o nascimento de Kevin, ela desenvolve uma relação de amor-ódio-culpa com a criança, que apresenta um comportamento claramente arredio e indócil, como se soubesse dos dilemas da mãe em relação a ele. 

Conforme vai crescendo, o menino vai dando sinais cada vez mais claros de sua personalidade sombria, provocando a raiva da mãe em pequenas situações de convívio, principalmente depois da chegada da irmã e, claro sempre tentando colocar a mãe contra o pai, pois tinha nele um aliado. Eva sentindo-se cada vez mais desconfortável e assustada com o comportamento de Kevin tenta de todas as formas manter um diálogo com o marido, que não lhe dá ouvidos, pois acredita que o menino só está sendo criança, isto é, querendo chamar a atenção dela para ele de forma inocente. 

Entretanto, ao chegar na adolescência, Kevin desencadeará uma tragédia sem limites dentro e fora da família, o que levará Eva a questionar-se sobre o seu papel de mãe, procurando entender o porquê de tanto ódio e tanta maldade e até que ponto o próprio comportamento dela diante da maternidade influenciou a vida e o comportamento do menino. E, assim passa a reexaminar todos os fatos que fizeram com que chegasse até ali e sua vida fosse virada totalmente de cabeça para baixo. 

No livro, em forma de romance epistolar, Eva usa de cartas para buscar essa comunicação com o marido que faltou no casamento, após a tragédia ocorrida e a evidente separação dos dois, tentando encontrar a resposta para a famosa pergunta: onde foi que eu errei?

Trata-se portanto, de um thriller psicanalítico, que procura discutir até que ponto os pais são culpados pelos desvios de caráter e de personalidade dos filhos. Até que ponto o tipo de criação e o ambiente em que foram criados influencia no desenvolvimento de pequenos delinquentes, pequenos monstros cheios de maldade prontos para desencadear terríveis tragédias. 

Um filme e um livro para serem vistos, lidos e discutidos. 





COMO SABER SE VOCÊ É UM VERDADEIRO LEITOR?

 


Segundo C.S. Lewis em seu livro Como cultivar uma vida de leitura, para saber se você é um leitor-raiz ou um leitor-nutella é necessário que você apresente as características abaixo, as quais qualificam um verdadeiro apreciador da boa Literatura. Caso não, sinto informar-lhe que você não passa de um leitor-nutella, mas pode estar no caminho para reverter este quadro. 

1. ADORA RELER LIVROS 

[...] A marca incontestável de um não literato é que ele toma “já li isso” como sendo um argumento conclusivo para não ler uma obra. [...] Por outro lado, aqueles que leem grandes obras as lerão dez, vinte, trinta vezes no decorrer de suas vidas. 

2. VALORIZA MUITO A LEITURA COMO UMA ATIVIDADE (E NÃO COMO ÚLTIMO RECURSO) 

Em segundo lugar, a maioria, ainda que muitas vezes seja leitora frequente, não dá muita importância à leitura. Dedica-se a ela como último recurso. Abandona-a com entusiasmo tão logo surge qualquer passatempo alternativo. A leitura é reservada para viagens de trem, quando se está doente, momentos estranhos de solidão forçada ou para o processo chamado “ler para dormir”. Por vezes, essa maioria combina a leitura com conversas aleatórias e, com frequência, com ouvir o rádio. Literatos, por sua vez, estão sempre procurando tempo livre e silêncio para ler, e com toda atenção. Se lhes é negada tal leitura atenta e sem perturbação, mesmo que por alguns poucos dias, eles se sentem empobrecidos.

3. LISTA A LEITURA DE LIVROS ESPECÍFICOS COMO UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA DE VIDA

Em terceiro lugar, a primeira leitura de uma obra literária geralmente é, para os literatos, uma experiência tão marcante que apenas vivências como o amor, a religião ou o luto podem servir de comparação. Toda a consciência deles é mudada. Eles já não são mais os mesmos. Entretanto, não há nenhum indício de qualquer coisa parecida entre o outro tipo de leitores. Quando terminam um conto ou um romance, pouca coisa, ou absolutamente nada, parece ter ocorrido a eles.

4. REFLETE E RECORDA CONTINUAMENTE O QUE LEU

Por fim, e como resultado natural de seu diferente comportamento quanto à leitura, o que eles leram está constante e preeminentemente presente na mente dos poucos, mas não dos muitos. Aqueles sussurram na solidão seus versos e estrofes favoritos. Cenas e personagens de livros fornecem-lhes uma espécie de iconografia pela qual eles interpretam ou sumarizam sua própria experiência. Falam uns com os outros com frequência e em profundidade a respeito de livros. Os muitos raramente pensam ou falam a respeito de suas leituras. [...]

Excerto retirado de:
LEWIS, S.C. Como cultivar uma vida de leitura. Trad. Elissami Bauleo. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020. 

SESSÃO PIPOCA - AS IRMÃS BRONTE E O CAMINHO INVISÍVEL






O filme lançado em 2016 narra o caminho tortuoso e invisível que as irmãs Bronte trilharam para publicar suas obras: Jane Eyre, O morro dos ventos uivantes e A senhora de Wildfell Hall, respectivamente de Charlotte, Emily e Anne Bronte escondidas atrás de pseudônimos masculinos (Currer, Ellis e Acton Bell) numa sociedade em que a mulher não tinha voz nem vez, no ano de 1847. Obras estas que viriam a se tornar clássicos da Literatura universal.

Também narra suas dificuldades para lidar com o irmão alcoólatra Branwell, o qual serviu de modelo para os personagens Hindley Earnshaw e Arthur Huntingdon, de O morro dos ventos uivantes e Wildfell Hall. Um filme biográfico imperdível para quem gosta de acompanhar o contexto de vida e obra dos melhores autores da Literatura universal.

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, DE ALDOUS HUXLEY




Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente. 
Jiddu Krishnamurti

Em Admirável mundo novo, romance da vertente das distopias, publicado em 1932, e que se passa na Londres do longínquo ano de 2540 (agora nem tão longínquo assim), Aldous Huxley faz uma reflexão sobre uma sociedade que seria a sociedade perfeita e estável. Mas como seria isso? Nesta sociedade visualizada pelo autor,  cada cidadão alcançaria uma vida plena de paz e harmonia através de elementos como: tecnologia reprodutiva, manipulação psicológica, hipnopedia (um tipo de manipulação psicológica pelo sono) e condicionamento clássico. 

De acordo com esse novo conceito de sociedade, não haveria mais sexo com o intuito de casamento e formação de famílias, pois os indivíduos nasceriam através de uma reprodução artificial em laboratório e seriam condicionados psicologicamente desde o nascimento para exercer determinada função na sociedade. Assim, seriam divididos em diferentes grupos para exercer diferentes funções dentro de uma sociedade considerada "ideal". 

Nesta sociedade "ideal" não haveria, portanto, espaço para tragédias, desequilíbrios e instabilidades, pois tudo funcionaria perfeitamente dentro de engrenagens detalhadamente planejadas, pois os indivíduos não seriam dotados de emoções e sentimentos de paixão, amor, piedade, solidariedade, sofrimento, tristeza, ódio, etc. Além disso, não seriam atacados pelas doenças nem teriam medo da velhice e da morte (permanecendo de certa maneira eternamente jovens) e também não seriam sobrecarregados e atormentados com tarefas e preocupações que uma família demanda. 

Outro benefício para o indivíduo seria a falta de acesso a estudos e conhecimentos adquiridos através de livros, pois eram considerados um meio e um instrumento de subversão, que fazia pensar. E pensar era algo desnecessário para a classe dominada, pois pensar significava liberdade, uma palavra que não existia para os líderes dessa sociedade. 

Apenas precisariam seguir determinadas regras de convivência e de comportamento para que a sociedade não saísse de controle e, caso, alguma coisa ameaçasse dar errado, existia o "soma", uma espécie de droga poderosa que colocava o indivíduo para dormir um sono profundo toda vez que sentisse que estava prestes a se desviar de seu caminho de alguma forma, voltando ao normal assim que acordasse. 

No excerto abaixo, um dos líderes, o Administrador Helmholtz, explica ao Sr. Selvagem, um indivíduo rebelado de uma outra localidade e que não fazia parte da vida "civilizada" de Londres, como funciona o seu mundo, a sua sociedade idealisticamente planejada para ser perfeita: 

--- Porque o nosso mundo não é o mesmo mundo de Otelo. Não se pode fazer um calhambeque sem aço, e não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. O mundo agora é estável.  As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E, se por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma. Que o Senhor atira pela janela em nome da liberdade, sr. Selvagem. Da liberdade!  (HUXLEY, 2014, p. 264)

Ao citar Otelo, de Shakespeare (que vê sua vida desequilibrada após Iago induzi-lo a ter ciúmes e desconfiar de um suposto adultério de Desdêmona com seu tenente, Cassio), o Administrador, assim como o Sr. Selvagem (que possuía grande conhecimento da obra do bardo inglês), demonstra conhecimento literário, ou seja, que já foi um desviado e que agora faz parte da sociedade civilizada. 

O interessante é que apesar de obviamente não ser o modelo ideal de uma sociedade livre e democrática, olhando o mundo totalmente desequilibrado em que vivemos hoje, com tanta guerra, matança, destruição, sede de poder e ganância, corrupção, doenças, fome, miséria, preconceito, disseminação de ódio, etc., é de se pensar se essa sociedade "ideal" imaginada por Huxley não seria a solução para salvar o que ainda resta de humano nos homens (se é que ainda resta alguma coisa). 

E, por mais, que ele estivesse prevendo algumas coisas sobre o hoje e, talvez, ironizando outras, o fato é que Huxley não estava de todo errado em suas visões. 


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Huxley, Aldous. Admirável mundo novo. Trad. Lino Vallandro; Vidal de Oliveira. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014. 

O RACISMO NA LITERATURA BRASILEIRA

 


Eu tenho um sonho, que os negros e os brancos andassem em irmandade e sentassem-se na mesma mesa em paz. 
[Martin Luther King]

O racismo sempre existiu na Literatura Brasileira tanto com relação a escritores e/ou poetas homens como em relação às mulheres em suas duas vertentes, ou seja, os que sofreram na pele o preconceito racial por serem negros e os que eram os próprios preconceituosos, refletindo esse preconceito em suas obras. 

Os escritores negros que sofriam preconceito manifestavam sua luta contra ele através da denúncia e da crítica social em suas obras, retratando a escravidão e as péssimas condições de vida do negro na sociedade. Também manifestavam essa luta na criação de personagens, seja na cor da pele e/ou na ideologia e valores morais e sociais que defendiam, como Antonio Balduíno, um dos primeiros personagens negros da Literatura Brasileira, colocado como personagem principal no romance Jubiabá, de Jorge Amado. Também o poeta Castro Alves abordou o tema da escravidão em seu famoso poema Navio negreiro, denunciando as péssimas condições de higiene em que viajavam nos referidos navios. 

Alguns exemplos de escritores que sofreram com o preconceito racial ou que disseminavam racismo em suas obras são:

a) Machado de Assis, insistentemente retratado como um homem branco e de origem elitista, embora fosse negro, nascido no morro e pobre, sem nunca ter frequentado uma universidade, apesar de sua grande genialidade;

b) Lima Barreto, também homem negro de origem humilde, denunciava em sua obra o preconceito racial, que ele mesmo sofreu quando tentou por três vezes candidatura à Academia Brasileira de Letras. Em suas obras aborda além do preconceito racial, o nacionalismo exacerbado (uma crítica à recriação de um passado indígena e misturado com um futuro progressista) e a violência contra a mulher. Era ainda contrário à moda de copiar tudo o que vinha da Europa e dos Estados Unidos. 

c) Cruz e Sousa, outro grande poeta e expoente do Simbolismo Brasileiro, também de origem humilde, filho de escravos alforriados sofreu preconceito racial durante toda a sua vida, tendo lutado contra a escravidão e o racismo. Teve acesso aos estudos graças ao apadrinhamento do coronel Guilherme Xavier de Sousa, antigo "dono" da mãe do poeta e de quem herdou o sobrenome Sousa. Suas obras refletem a angústia, a presença e a obsessão pela cor branca, além da temática da pobreza, do preconceito racial e da morte. 

d) Gilka Machado, poetisa precursora da poesia erótica feminina no Brasil, de origem pobre sofreu preconceito não só pela pobreza, mas também pela cor de sua pele e pela ousadia de falar em sexo no contexto sociopolítico da época da República. Recebeu vários comentários negativos dos críticos literários, entre eles, Afrânio Peixoto que a chamou de "matrona imoral" e de "mulatinha escura" ao reportar um encontro que tivera com Gilka para entregar-lhe uma carta, fazendo questão de enfatizar que sua casa "respirava pobreza". Outros críticos como Agripino Greco a chamavam de "bacante dos trópicos". Além disso, sua origem familiar também parecia contribuir para essa "devassidão literária" de Gilka, uma vez que sua mãe era registrada como prostituta para poder trabalhar como atriz de rádio e o pai um beberrão incorrigível que a batizou de Gilka, uma famosa marca de vodca. 

Há ainda Monteiro Lobato, considerado caso um tanto polêmico na Literatura. Alguns estudiosos e críticos literários encontraram termos e trechos com conotação racista em seus livros. Um exemplo seria o tratamento dado pelo narrador à Tia Nastácia em Reinações de Narizinho ao referir-se a ela repetidamente como "negra" ou "preta", como na frase “A negra deu uma risada com a beiçaria inteira” (p.180) num sentido um tanto quanto pejorativo, além de atribuir características físicas distintivas como se a personagem fosse definida pela cor de sua pele.

Também se destacam as falas de Emília e Cinderela, no capítulo A coroinha, quando toma café com as princesas Branca de Neve, Rosa Vermelha, Capinha Vermelha e Cinderela que vão visitá-la no Sítio. Ao ser perguntada por Branca de Neve sobre quem é tia Nastácia, a boneca parece responder em tom de zombaria ao dizer que a cozinheira do Sítio é uma princesa de origem núbia, um povoado (os núbios) que se desenvolveu numa antiga região da África:

Pois não sabe? respondeu Emília com carinha malandra. Nastácia é uma princesa núbia que certa fada virou em cozinheira. Quando aparecer um certo anel, que está na barriga de um certo peixe, virará princesa outra vez. Quem vai danar com isso é Dona Benta, que nunca achará melhor cozinheira. (LOBATO, p. 174, 2019)

Um pouco mais adiante no diálogo estabelecido entre elas, Cinderela ao comentar que não toma café com medo de ficar com a pele escura, Emília concorda que ela não deve mesmo tomar café para não ficar com a mesma cor preta de Tia Nastácia:

[...] Todos tomaram café, menos Cinderela.  Só tomo leite explicou a linda princesa. Tenho medo de que o café me deixe morena. 

Faz muito bem. disse Emília. Foi de tanto tomar café que Tia Nastácia ficou preta assim... (LOBATO, p. 174-175, 2019)

O autor tentou ainda editar uma obra intitulada O Presidente Negro, nos EUA, a qual não teve aceitação. Devido ao fato de carregar conceitos e ideologias de um racismo estrutural advindo de um passado de escravidão no Brasil, seu livro não tinha como ser aceito, uma vez que o país americano já havia abolido sua escravidão e os negros ainda sentiam o desafio de tentar se inserir na sociedade dominada por brancos. À la Orson Wells, num enredo distópico, que começa no Brasil na década de 1920, o personagem Ayrton sofre um acidente, sendo resgatado por uma espécie de cientista "maluco", que lhe apresenta suas invenções. Entre elas está uma geringonça chamada porviroscópio, uma máquina que mostra o futuro. Assim, através dela, eles começam a acompanhar a vida no EUA, que em 2228 passava por uma campanha eleitoral. A sociedade americana havia adotado algumas medidas como o fim da imigração, a execução de recém-nascidos com malformações e a esterilização dos doentes mentais. É então neste contexto que o candidato à presidência Jim Roy, um homem negro vence a eleição. Outro aspecto abordado na obra, é que no país não havia ocorrido a miscigenação como aqui no Brasil não causando uma degeneração da raça branca. Por fim, devido aos conflitos de convivência e aceitação entre negros e brancos, os negros sugerem a divisão do país e os brancos, indo mais além, sugerem que todos sejam extraditados para a Amazônia. 

O autor teria rejeitado as críticas e os conselhos que recebeu dos editores norte-americanos acerca da publicação da obra. Atualmente vem sendo cancelado por estudiosos e por escolas que indicavam seus livros para leitura. Mas, apesar de toda a polêmica em torno de sua obra, não se pode negar o legado que ele deixou para a literatura infanto-juvenil no país.  


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

D'ANGELO, Helô. Lima Barreto e o racismo do nosso tempo.  Revista Cult. 11 de maio de 2017. <https://revistacult.uol.com.br/home/lima-barreto-e-o-racismo-do-nosso-tempo/> Acesso em 04/11/23

LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. 1 ed. São Paulo: Ciranda Cultural, 2019.

MOREIRA, Éric. O livro que fez Monteiro Lobato quebrar a cara ao tentar conquistar os EUA. Revista Cult. 26 de fevereiro de 2023. <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/o-livro-que-fez-monteiro-lobato-quebrar-cara-ao-tentar-conquistar-os-eua.phtml>

RKAIN, Jamile. Uma pioneira no erotismo: lutando contra machismo e racismo, Gilka Machado escreveu sobre libertação da mulher pelo sexo. Em: <https://operamundi.uol.com.br/samuel/46618/uma-pioneira-do-erotismo-lutando-contra-machismo-e-racismo-gilka-machado-escreveu-sobre-libertacao-da-mulher-pelo-sexo> Acesso em 04/11/23.

Sobre Cruz e Sousa: <https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/cruz-e-sousa.htm> Acesso em 04/11/23.


O NARRADOR DO ROMANCE - CAPÍTULO 2 - 4. AS NATUREZAS DO NARRADOR




As naturezas analítica, filosófica e ambígua conformam o narrador. Certamente não é a mesma natureza analítica do ensaio. No ensaio, a palavra, além de procurar a precisão, tem pretensões científicas. Na narração, contudo, a análise pode se confundir com entendimento. Quem se propõe a narrar é porque teve uma experiência anterior de compreensão de determinado fato. Ninguém narra sem saber. O narrador narra aquilo que conhece. E não narra sem despretensão. O narrador quer dizer algo sobre aquilo que narra. Ele conta porque atrás da história está uma moral. Um tema. Uma suposta verdade. Uma visão de mundo. Seja o que for, a narração não é um ato fortuito. O narrador é inteligente. O narrador está emitindo frases com conteúdos difusos. Além do mais o discurso do narrador é um discurso perigoso. Seu objetivo é que o leitor venha a ter o mesmo ponto de vista de quem narra. É uma versão. E, como toda versão, uma parcialização da realidade. Um entendimento da realidade. 

Dentro desse mesmo espírito, podemos dizer que o narrador não é um mero contador de histórias. O narrador expressa um conceito seja ele de que ordem for. O narrador é um ordenador que se expressa através da ficção. Ele procura dizer com a história. E mais ainda, ele exemplifica. O narrador, no fundo, é um narrador de uma fábula. Ao construir uma metáfora, o romance está permitindo ao narrador edificar uma parábola. O conto é herdeiro direto e natural das fábulas, mitos e lendas como gênero narrativo. Não só pela forma como também pela impressão causada no leitor. Mas neste aspecto o romance vai aproximar-se, senão do conto, das fontes primeiras da narração. Talvez, neste caso, fale mais alto, não o gênero, mas a qualidade intrínseca do narrador. Nenhuma narração é em vão. Sabe o leitor que está procurando algo mais que uma história, sabe o autor que, através do narrador, conta além do narrado. 

O narrador pertence ao condomínio da linguagem não efetiva, intercambial, valor de troca e de comunicação, mas da linguagem ritualística, religiosa, mítica, criadora. Essa experiência religiosa da linguagem transforma o narrador numa voz sacerdotal --- não tanto pelo que pode haver de verdade santificada, a palavra divina, mas pelo ritual de ler um texto sagrado. E neste sentido sagrado vem a ser a criação de um mundo que não é aquele de que se fala mas de outro que deveria ser. Na linguagem religiosa a palavra tem o papel profético e cada história não é a história em si. No romance a linguagem não procura anunciar novas verdades, nem condenar ninguém ao fogo eterno e muito menos pontificar entre o que é pecado e o que é santidade. 

Contudo, tanto no texto religioso quanto no texto ficcional as palavras estão a serviço de uma ideia que não é a ideia do ensaio --- ambos textos buscam uma explicação existencial e o fazem através de relatos e parábolas, metáforas e alegorias. O romance afasta-se do religioso quando não julga, não condena nem dicotomiza entre o bem e o mal. O romance afasta-se do religioso quando busca o prazer estético que não é preocupação do texto religioso. Mas se aproximam quando ambos "narradores" fabulam em nome de uma ética e de uma moral. A única diferença é que esta ética e esta moral do romance não são explícitas nem podem ser apresentadas de forma explícita, pois colocam em risco a qualidade narrativa. Em toda literatura está a ideia de negar um mundo injusto, desequilibrado e em desordem. Alguns autores --- os realistas de denúncia social --- são mais explícitos, enquanto outros negam com sutileza até mesmo metafísica --- os autores textualísticos para quem a experiência linguística é mais importante que os elementos de ação exterior. 

O texto religioso não comporta o termo narrador quando não existe uma fábula ou parábola. Ensinamentos, mandamentos, leis e normas, descrições ritualísticas e litúrgicas, rezas e procedimentos formais da igreja ou congregação não fazem parte do repertório narrativo do texto religioso. Nos causos, parábolas, histórias e relatos de cunho mítico, os textos religiosos trazem invisíveis ou presentes o narrador cuja função vai mais além de ordenar fatos e julgar ações. É ele quem tem o encargo de dar verossimilhança ao texto. No texto religioso é muito mais fácil para o narrador fazer-se acreditar porque ele não fala por si mas em nome de algo maior, um deus, um sistema de normas que é a sua religião que o respalda e produz uma credibilidade anterior ao que vai narrar. O papel do narrador literário é, neste sentido, duplamente difícil. Primeiro, porque ele tem que criar verossimilhança e depois, transmitir fruição a alguma ideia --- mesmo e principalmente que o autor assim não o deseje ou expresse claramente. Na criação de mundos imaginários, no valor da palavra, não como documento mas como fé, --- religiosa ou estética --- se acercam as duas experiências linguísticas. 

O discurso do narrador pode desejar o registro mas sempre será expressão da percepção. O narrador que nomeia não pode testemunhar além daquilo que viveu. O mais impessoal narrador em terceira pessoa pode dar cara de documento a seu texto, mas em algum momento, talvez por um deslocado adjetivo, o que pretendia ser História passa a ser história. O adjetivo por mais preciso e necessário, é uma visão pessoal. O narrador que adjetiva se trai. O realismo condenou o adjetivo exaltado do Romantismo porque percebia ali uma expressão do eu lírico. O Realismo apenas substituiu um adjetivo exacerbado por outro pretensamente científico. E a modernidade substituiu os dois por um adjetivo dito original. 

Ora, o adjetivo pode ser lugar-comum ou original, pode vir em forma gramaticalmente identificável como adjetivo (belo, feio, novo, velho, etc.) ou pode vir em forma de imagem ou perífrase, uma frase que tenha valor adjetivo. O certo é que a presença do adjetivo é onde se revela a existência do eu lírico no texto narrativo. É onde o narrador distante e impessoal que tanto quis se esconder atrás da linguagem documental se denuncia como discurso não científico. Não científico, deixemos claro, mas ideológico. "Sabe-se que a impassibilidade absoluta de um texto, como preconizavam os realistas, é impossível de ser instaurada", diz Céres Fernandes. 

A implicação do social em uma obra literária é sempre recorrente, nem que essa instância se situe por omissão. Parafraseando Paul Ricouer, não existe, na verdade, um lugar não-ideológico de onde se possa pensar o discurso literário. A aparentemente simples escolha do material a ser descrito já implica um intencionalidade. Mesmo a adoção da chamada "visão de câmera", considerada como o máximo da exclusão do autor, não é neutra: os vários ângulos adotados para a exposição de uma determinada situação pressupõem uma seleção e indicam afetividade. 


FRAGMENTO DE:

Fernandes, C. Ronaldo. O narrador do romance: e outras considerações sobre o romance. 1 ed. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996. 



MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA - POR QUE VOCÊ ESCREVE?



Em 2006, o professor e bibliotecário pernambucano, José Domingos de Brito lançou uma coleção de livros composta de cinco volumes chamada Mistérios da criação literária, sendo o primeiro e segundo volumes intitulados "Por que escrevo?" e "Como escrevo?", com perguntas fundamentais aos escritores sobre os mistérios que envolvem o processo de criação literária. 

O primeiro volume traz uma série de depoimentos de escritores e poetas, como: Dalton Trevisan, Carlos Drummond de Andrade, George Orwell, Clarice Lispector, Lya Luft, Jean-Paul Sartre, João Cabral de Melo Neto, José Saramago, Júlio Cortázar, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Truman Capote, entre muitos outros, respondendo a essa pergunta tão íntima, repleta de significados pessoais para cada um e, muitas vezes um tanto desconfortável para alguns. 

Confira agora algumas respostas:

"A literatura foi o caminho que eu encontrei para enfrentar essa bela tarefa de viver". (Ariano Suassuna)

"Escrever para mim é indagar." (Lya Luft)

[...] "escrevo quando dá vontade, com ternura. Às vezes, fico semanas sem pegar na caneta. É claro que com o passar do tempo vou ficando angustiado. Preocupado. Será que morri?" (Dalton Trevisan)

"No meu caso, num certo sentido, é o desejo interior de dar um testemunho do meu tempo, da minha gente e principalmente de mim mesma: eu existi, eu sou, eu pensei, eu senti e eu queria que você soubesse. No fundo, é esse o grito do escritor, de todo artista. Creio que o impulso de todo artista é esse. É se fazer ver. Eu existo, olha pra mim, escuta o que eu quero dizer: tenho uma coisa pra te contar. Creio que é por isso que a gente escreve." (Rachel de Queiroz) 

"Antes eu dizia: Escrevo porque não quero morrer. Mas agora eu mudei. Escrevo para compreender. O que é um ser humano?" (José Saramago) 

"Por que escrevo é um negócio complicado... Eu tenho a impressão de que a gente escreve por dois motivos. Ou por excesso de ser --- é o tipo do escritor transbordante, como a maioria dos escritores brasileiros; é uma atitude completamente romântica --- ou por falta de ser. Eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche um vazio existencial. Às vezes, eu escrevo porque quero dizer uma determinada coisa que eu acho que não foi dita; às vezes porque me interessa que conheçam meu ponto de vista. Às vezes, escrevo também por prazer." (João Cabral de Melo Neto)

"Porque a criação só pode encontrar seu acabamento na leitura; porque o artista deve confiar a outro a tarefa de concluir o que ele começou; porque somente através da consciência é que ele pode se ter como essencial a sua obra e toda obra literária é um apelo. Escrever é apelar ao leitor para que ele faça passar à existência objetiva o descobrimento que empreendi por meio da linguagem."  (Jean-Paul Sartre)

[...] "Escrevo porque existe uma mentira que pretendo expor, um fato para o qual pretendo chamar a atenção, e minha preocupação inicial é atingir um público. Mas não conseguiria escrever um livro, nem um longo artigo para uma revista, se não fosse também uma experiência estética." (George Orwell) 

"Tenho a impressão de que se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Não haveria condição. Não saberia dizer, não. Está além da minha compreensão. Esta pergunta é tão grave como se perguntasse: Por que vive? Por que ama? Por que morre? Talvez eu escreva para atender a essas três presenças que são as únicas que existem na vida de um homem. No verso de Eliot: 'Birth, copulation and death'; eu diria 'nascimento, amor e morte'. Não sei por que escrevo. Eu nasci, virei homem e vou morrer." (Fernando Sabino)

"Eu escrevo para salvar a alma." (Fernando Pessoa)

"Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever." (Clarice Lispector) 

"Posso dizer sem exagero, sem fazer fita, que não sou propriamente um escritor. Sou uma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu talvez exprimir algumas de suas inquietações, seus problemas íntimos, que os projetou no papel, fazendo uma espécie de psicanálise dos pobres, sem divã, sem nada. Mesmo porque não havia analista no meu tempo, em Minas."(Carlos Drummond de Andrade) 

Mas... e você? Por que você escreve mesmo? 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Brito, de Domingos José. Por que escrevo? Coleção Mistérios da Criação Literária. Vol 1. 1 ed. São Paulo: Escrituras, 1999.